Mais uma bela história de adoção

Após a busca ativa no Cadastro Nacional de Adoção (CNA), que realizo para os habilitados da comarca onde trabalho, encontrei dois irmãos disponíveis em outro Estado. Contatei um casal que estava na fila e que pretendia adotar duas crianças e expliquei sobre a situação de saúde de uma delas: havia o informe de que o menino mais velho apresentava o diagnóstico de Transtorno do Espectro Autista. Os habilitados contaram que, coincidentemente, assistiram naquela semana a um filme sobre uma criança com autismo e solicitaram a manifestação formal do interesse de irem até a comarca para conhecerem os irmãos. Cabe destacar que o casal desejava a adoção de crianças saudáveis, mas decidiram alterar o perfil em função do relato da situação das crianças.

    Então, enviei uma mensagem para o responsável pelo cadastro das crianças e foi esclarecido que o casal teria que aguardar a consulta à fila de habilitados da cidade onde estavam acolhidos e, em seguida, a pesquisa aos outros interessados, de outras comarcas, que estivessem registrados no Cadastro Nacional. Ou seja, sempre se respeitando a colocação na fila (data da habilitação e perfil do candidato).

 Quase um mês depois, a assistente social nos contatou e falou da segunda fase de busca de pais para as crianças, uma vez que não houve habilitado na comarca interessado no perfil dos irmãos. Conversei novamente com o casal para saber se eles estavam interessados, esclarecendo que a pesquisa se ampliaria para outras cidades do país. O candidato respondeu que sim e, dias depois, contou que sua esposa havia sonhado com dois meninos lhe abraçando. Ressaltei que as chances eram pequenas porque seria respeitada à data de habilitação. Como eles foram habilitados em 2015 estavam na última colocação da fila para essas crianças.

Após algumas semanas a assistente social da referida comarca me telefonou dizendo que chegara o momento da consulta aos habilitados de Valença, mas havia um detalhe importante, dada a enfermidade do menino mais velho, eles teriam que permanecer três semanas ou talvez um mês na cidade, visando ser observada a reação dos meninos a aproximação dos candidatos. Pensei que o casal declinaria da intenção, uma vez que os dois trabalham e talvez não seriam autorizados pelos empregadores o afastamento por tanto tempo. Entretanto, e felizmente, conseguiram se organizar e foram conhecer os meninos. A aproximação das crianças foi mais rápida do que os profissionais da instituição, a assistente social e as autoridades do fórum, poderiam prever. Os irmãos, desde o primeiro dia de visita, responderam com alegria ao encontro e posteriormente aos passeios. Em seguida, o casal – que havia alugado um Flat – recebeu a autorização da juíza para passar um final de semana com as crianças e novamente tudo transcorreu muito bem.

Vale registrar um momento especial desses encontros: Na segunda-feira, após o final de semana juntos, os requerentes foram com as crianças a instituição para devolver os pertences dos meninos, pois compraram diversas roupas e brinquedos. A candidata contou emocionada que o menino mais velho ficou o tempo todo no seu colo de olhos fechados, pois demonstrou que temia ser deixado novamente no Abrigo. Então, antes do previsto, promotor e juíza autorizaram a guarda das crianças ao jovem casal.

Outro detalhe muito interessante é que desde o princípio, no processo de habilitação, para os candidatos era indiferente à cor da pele dos futuros filhos. Os irmãos são loiros e muito parecidos com os guardiões. Inclusive, os pais e amigos do casal também se surpreenderam com a semelhança física.

No período de adaptação fui visitá-los. Observando a fala dos entrevistados e a troca de carinho dos quatro juntos percebi que o amor de pais e filhos estava ali presente como se sempre, desde o nascimento daqueles lindos meninos, já estivesse.

            Nesta semana soube que a juíza determinou a adoção e o jovem casal  estava correndo para registrá-los. Outro momento mágico de quem adota é ter em mãos a certidão de nascimento. Ler em voz alta o nome do filho na nova certidão. Algo tão simples para quem tem um filho biológico e tão sonhado e ansiado por quem adota.

Chamo a atenção para o fato da troca imediata no CNA do perfil do casal em relação a saúde das crianças pretendidas quando o contatei e falei do autismo.  Há comarcas que são rígidas em relação a alteração do perfil no Cadastro, especificando que somente depois de determinado tempo pode ocorrer a alteração das características da criança pretendida. Felizmente o juiz de Valença, Dr. Daniel Konder de Almeida,  concorda que seja alterado o perfil do habilitado ou habilitados a qualquer momento. Muitos candidatos, quando iniciam o processo de habilitação, demonstram vários receios em relação ao passado da criança adotiva e muitas vezes são bombardeados com frases preconceituosas pelos próprios familiares e amigos. Quando são habilitados, os candidatos participam de Grupos de Apoio à Adoção e vão conhecendo várias histórias de famílias adotivas. Essas informações, depoimentos e contatos geralmente provocam a mudança do perfil do filho desejado. Inclusive, não sou favorável ao processo de convencimento na abordagem com os habilitados, na tentativa de que modifiquem as características do perfil do filho esperado. Acredito, sim, na conscientização gradativa. Desta forma, a mudança passa a ser de dentro pra fora, construída pelos próprios interessados e não imposta por profissionais. Infelizmente, há crianças e adolescentes sendo “devolvidos” em função de um discurso impositivo de pessoas que trabalham na área. As devoluções pioram o quadro de carência (a ferida do abandono, a insegurança e a tristeza) dessas crianças quando sofrem outra rejeição. Para se trabalhar com as adoções necessárias (adolescentes, grupos de irmãos e crianças com deficiências) há que se ter muita cautela.

Na minha opinião profissional, alguns caminhos para o sucesso dessas adoções poderiam ocorrer através da divulgação responsável das histórias dessas crianças (que não foram adotadas) nas reuniões dos Grupos de Apoio à Adoção. Já relatei aqui no site a história de um menino com deficiência, que, após não localizar habilitado interessado no CNA, teve sua história divulgada em um Grupo de Apoio à Adoção de uma cidade próxima e ele foi adotado por um casal maravilhoso. Ou seja, seria fundamental uma maior visibilidade dessas histórias. Outro exemplo: o incentivo de visitas (bem orientadas) dos habilitados às instituições de acolhimento. Há também o relato no site do sucesso da adoção de quatro irmãos por dois casais, uma das meninas tinha na época 12 anos. Tudo aconteceu após a visita a instituição de Abrigo do município. A criação em todas as cidades dos projetos “Apadrinhamento Afetivo” e “Família Acolhedora” são mais duas possibilidades de oferecer aos acolhidos a garantia da convivência familiar e comunitária. Temos que buscar todas as alternativas possíveis e seguras, evitando ao máximo que mais meninos e meninas envelheçam nos Abrigos e saiam com 18 anos sem nenhum tipo de vínculo afetivo. Quem sabe o Cadastro Nacional de Adoção poderia divulgar para os que estão nas filas – na presença de profissionais do judiciário – as fotos e pequenos filmes sobre os adolescentes, grupos de irmãos e crianças com deficiência. Repito: urge dar maior visibilidade aos que estão com maior dificuldade de adoção.

Com grande alegria tomei conhecimento, no site do Conselho Nacional de Justiça sobre uma campanha do Tribunal de Justiça do Espírito Santo chamada “Esperando por você”. Na matéria intitulada Adoção tardia: tribunais dão visibilidade a criança e adolescente, divulgada no dia 16/05/2017, conta que  será divulgado a partir de sexta-feira em diversos shoppings  de Vitória, 20 vídeos produzidos pela justiça para estimular a adoção de crianças”. Em um deles “O menino Thalisson, de 11 anos, que vive em um abrigo no Espírito Santo, interrompe a brincadeira, olha para a câmera e, sem hesitar, faz um pedido: ‘Eu queria ter uma família, ser adotado, dar amor, carinho e respeito. Você quer ser minha família?’”. Estamos no caminho, maravilhosa iniciativa!!

        Voltando a bela história, leiam o relato que a jovem MÃE Clara escreveu sobre o encontro com seus filhos:

        “Após tentar engravidar por dois anos sem sucesso, eu e meu marido tomamos a decisão de adotar. Não foi de repente, falamos muitas vezes sobre isso, mas houve um dia decisivo. Já estávamos muito felizes e emocionados, mesmo antes de começar a trilhar o difícil caminho da adoção.

Difícil porque é permeado de burocracias, preconceitos e dúvidas, todas elas necessárias para a escolha de pais adotivos. É preciso conhecer profundamente nossas dificuldades, e vencê-las, ou assumi-las, para adotar. Funciona como uma seleção, apenas alguns chegarão ao final do processo. Tem que ser assim, pois não dá para adotar como uma segunda opção, com dúvidas. Se o casal não vê a adoção como uma forma legítima de maternidade/paternidade, não será possível vencer todos os obstáculos.

Nossa história aconteceu como um sonho, que até hoje eu não realizo totalmente.

Queríamos adotar irmãos, até um ano de idade, de qualquer sexo ou cor. Passamos quase um ano na fila sem nenhuma criança no nosso perfil. Mas esse na verdade não era o nosso perfil, e fomos descobrindo com o passar do tempo. Normalmente, no dia de escolha do perfil ainda estamos inseguros, e aquelas opiniões alheias (família, sociedade) imperam. E envolvem preconceitos com a adoção tardia. Até que decidimos ampliar para cinco anos a idade das crianças, pois percebemos que seria possível (nós estávamos prontos). Quem me conhece sabe que não tenho afinidade com bebês, nunca tive esse sonho de gestar. O perfil RN era dos outros, e eu copiei (rs) até estar pronta para afirmar o meu.

A primeira coincidência é que nos sentimos prontos para alterar o perfil duas semanas antes dos nossos filhos serem incluídos no CNA.

As buscas retornaram algumas crianças, e fomos contatados pela assistente social algumas vezes. Mas nunca senti que eram meus filhos, até eles aparecerem na busca. Lembro como se fosse hoje quando recebi o e-mail, e disse para minha amiga de trabalho: tenho que ir para casa pois achei meus filhos. Eu senti, tive certeza. Saí correndo do trabalho para abraçar meu marido e comemorar.

Mas não foi fácil. Após encontrá-los no CNA, a assistente contatou a Vara, que explicou que primeiro consultaria os interessados da cidade, e depois seguiria a ordem do CNA. Eram muitos candidatos a pais, e a assistente nos alertou para que não ficássemos muito animados. Registramos o interesse e a coincidência: minha grande amiga havia trazido um filme sobre autismo, dizendo ter que assistir comigo, na mesma semana. Uma das crianças é diagnosticada autista.

Mas nós já sabíamos. Chorávamos de emoção em casa, tentando não falar sobre isso. E sempre que a assistente social trazia novos casos para consideração, eu perguntava se os meninos ainda estavam no cadastro, e nunca me interessei mais pelas novas crianças – já havia encontrado meus filhos!

Foram dois meses de aflição. Um dia eu sonhei que abraçava dois meninos. Alguns dias depois, recebemos uma ligação dizendo que estávamos entre os três finalistas. Em terceiro lugar, mas estávamos certos de o dia estar chegando. A juíza fez algumas exigências, entre elas a permanência por um mês na cidade das crianças. 

Hoje sabemos o milagre que nos fez chegar aos nossos filhos: o casal que estava na nossa frente, após agendar o encontro com nossos filhos e início da convivência, recebeu na véspera uma ligação de sua comarca oferecendo um recém-nascido, perfil ideal para o casal.

Os detalhes que seguem são indescritíveis: viajamos e permanecemos por dez dias convivendo com nossos filhos, na supervisão de uma equipe maravilhosa de assistentes sociais e psicólogos. Foram dias emocionantes, tensos, e muito felizes. Nós, aprendendo a ser pais, eles, aprendendo a ser filhos, e se adaptando ao nosso convívio. Antes do esperado, a juíza autorizou que viessem conosco para casa.

Hoje nossos filhos estão integrados e felizes. Nossa família é linda, perfeita, e formou-se pelo coração. Pelas nossas escolhas. Não tenho nenhum trauma por ser infértil, apenas entendo que essa foi a forma possível dos meus filhos chegarem até mim. Pois os laços espirituais são muito mais fortes do que os laços carnais. Entendo a demora, entendo a necessidade da mudança de perfil, entendo o chamado ao casal da nossa frente.  

O universo conspirou para nossa família se unir, e assim ocorre nos casos de gravidez ou de adoção (ou qualquer outra forma de maternidade).

        Quando participo de histórias como esta renovo minha esperança no trabalho, na vida e nas pessoas. Posso garantir que esses meninos serão pessoas incríveis, pois foram muito desejados e hoje são amados pela mãe e pelo pai – seus verdadeiros pais.

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Odete Loureiro
Sobre o autor

ODETE MARIA LOUREIRO RIBEIRO é Assistente Social e trabalha atualmente no Poder Judiciário (RJ), lidando diretamente com questões relacionadas a crianças em situação de risco e pais candidatos a adoção. A Odete cursou Especialização e Mestrado Profissional em Gerontologia na Espanha (Universidade de Salamanca), é autora do livro “Adoção", pratica yoga, meditação, é vegetariana e adora uma boa foto.

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