Por que não existe o dia internacional dos homens?

Há poucos dias terminei de assistir uma série riquíssima, onde os personagens tratam sobre o feminismo, o machismo, os traumas de infância, as doenças mentais, entre outros. “The Fall” se passa na Irlanda do Norte, um suspense psicológico sobre um psicopata e uma detetive, que não mede esforços para encontrar o serial killer. A personagem principal, Stella, é interpretada pela atriz Gillian Anderson. O comportamento livre e independente da detetive incomoda alguns colegas. Pretendo, especialmente, me ater no diálogo entre Stella e um policial – interpretado por Colin Morgan. Quando este tenta insinuar que o psicopata provoca um fascínio nas pessoas, ela nega e diz que todas as suas fibras o repelem. Em seguida Stella diz algo bastante forte, transcrevo suas palavras: “Uma mulher, esqueci quem, disse que perguntou a um amigo por que os homens se sentiam ameaçados pelas mulheres. Ele respondeu que eles tinham medo que as mulheres rissem deles. Quando ela perguntou a um grupo de mulheres por que elas se sentiam ameaçadas pelos homens, elas responderam: Temos medo que eles nos matem.”

Infelizmente, ainda não podemos comemorar o dia internacional da mulher enumerando conquistas. Segundo a Pesquisa da Fundação Perseu Abramo, realizada em 2010, “a cada dois minutos, 5 mulheres são espancadas no país. No levantamento constatou-se que 11,5 milhões de mulheres já sofreram tapas e empurrões e 9,3 milhões sofreram ameaças de surra.” Segundo matéria publicada em 2015 no site da BBC – Brasil, “a Lei Maria da Penha, sancionada em 2006, que estabelece como crime a violência doméstica, foi vista como um marco – é reconhecida pela ONU como uma das três melhores legislações do mundo no enfrentamento à violência contra a mulher. No entanto, a cada ano, mais de um milhão de mulheres ainda são vítimas de violência doméstica no país, segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e estatística (IBGE)”. Recentemente uma grávida foi agredida por se negar a fazer sexo com o companheiro, outra porque passou a receber um salário maior. São muitas as histórias publicadas nos jornais diariamente, fora o que não é registrado em função do silêncio, do medo do agressor. É imprescindível acolher essas mulheres e tratar o medo das vítimas de violência.

Um fator extremamente preocupante para os profissionais do CREAS (Centro de Referência Especializado de Assistência Social), Ministério Público e Justiça tem sido os casos de violência contra a mulher idosa. De acordo com dados do Disque 100, “negligência, violência psicológica e abuso financeiro são as maiores queixas. Filhos e netos são os principais agressores de idosos e as mulheres são as principais vítimas”. As denúncias crescem assustadoramente e o mais difícil no atendimento das idosas é que elas não confirmam as agressões, visando proteger o familiar. Quando se confirma a situação de demência da pessoa idosa a Justiça consegue intervir buscando um responsável, um curador. No entanto, quando a idosa possui autonomia – a saúde mental está preservada, há um limite na intervenção profissional; mesmo que a Justiça utilize o Estatuto do Idoso é difícil mudar a realidade familiar. A idosa dificilmente afastará o familiar agressor da sua convivência.

Por tudo isso, temos que continuar a conscientização e implantar ações preventivas contra a violência doméstica. Admiro a iniciativa de mulheres em Recife que se uniram e utilizaram algo simples: apitos para coibirem a agressão dos companheiros. Em cada município deveria existir um grupo formado por profissionais e mulheres que conseguiram superar a violência doméstica visando acolher a mulher que decide denunciar ou superar a dor. É fundamental uma rede de apoio no momento da denúncia, pois o sentimento de culpa muitas vezes é o maior impedimento para enfrentar o agressor, quando este é ou foi amado pela vítima.

Vale enfatizar, enquanto assistente social, que avalio que a EDUCAÇÃO é fundamental no processo preventivo. Escolas, mães, pais, avós precisam evitar discursos machistas. É um absurdo, por exemplo, que no lar somente as meninas são escaladas para as tarefas domésticas e os meninos são “poupados”. Lembrei-me ainda de um vídeo que circulou nas redes sociais sobre uma garota se queixando que as camisas dos meninos eram muito mais divertidas, pois apresentavam estampas diversas; enquanto as camisas das meninas somente estampavam princesas. Quantas meninas cresceram acreditando que a única coisas a se fazer era aguardar a chegada do príncipe encantado. A fantasia faz parte da infância, porém há outras histórias e brincadeiras que também são importantes na formação do feminino – da concepção do que é ser mulher.

Mudando o rumo da conversa e parafraseando o compositor Geraldo Vandré, “para não dizer que não falei das flores” – apresento o nome de algumas mulheres admiráveis, que fizeram a diferença na história dos direitos das mulheres brasileiras: Nísia Floresta, Bertha Lutz, Carolina de Jesus, Anita Malfatti, Laudelina de Campos Melo. Deveríamos saber sobre suas vidas e contá-las para as nossas filhas e filhos. As escolas também deveriam divulgar a biografia dessas heroínas.

E hoje quem são as mulheres que se destacam no Brasil? Citarei apenas duas:

Evane Lopes¹: de Paracatu – MG – Luta pelos diretos das quilombolas. Evane atuou para garantir direitos básicos para a população quilombola, exigiu a reparação dos impactos provocados por uma grande empresa que atua no local, e levou cinco comunidades da região para conversar com a Presidência da República.” Em 2012 foi ameaçada de morte e no mesmo ano foi selecionada para integrar um cargo na ONU Mulheres. “Atualmente, estuda Direito para incidir ainda mais fortemente nas injustiças cometidas cotidianamente contra as populações tradicionais.” É bonito demais quando ela diz que nunca falou para as filhas que “lutar por um ideal é ruim”.

Ana Terra Yawalapiti²: No Mato Grosso, em aldeias do Alto Xingu, existe um espaço onde os homens se reúnem, lá não se entram mulheres e elas não podem nem olhar os objetos sagrados do local. Chama-se ‘Casa dos Homens’. Ana Terra quando adulta, “junto com a irmã Watatakalu, começou a ansiar por um lugar em que as mulheres da aldeia Tuatuari também pudessem se reunir”². Ana conta: “Quando você olhava ao redor na aldeia, percebia que as mulheres não sabiam mais fazer o artesanato, as redes, as cerâmicas tradicionais do nosso povo. Começou a existir um desinteresse. Por que não ter um espaço só das mulheres para a gente compartilhar umas com as outras o que a gente sabe?”². Em 2010, quando ela e a irmã apresentaram a ideia, a rejeição dos homens da aldeia foi enorme. “Antes mesmo do início da construção, Ana se empenhou em reunir as mulheres da aldeia que num resgate da tradição voltaram a ter contato com cerâmica, tecelagem e cestaria. Avós passaram a ensinar o bordado das redes para as netas, e mãos destreinadas voltaram a moldar o barro. Assim a tradição tem sido resgatada.” Ana ainda explicou: “Nós começamos a fazer um mutirão, passamos a ensinar as crianças. A ‘Casa da Mulher’ vai ser um lugar de aprendizado, para que a gente volte a confeccionar o algodão, o barbante e servirá também como um lugar de acervo daquilo que a gente produz”. Aparentemente algo tão simples, mas que causou uma significativa mudança no papel da mulher na Aldeia, além da preservação cultural e da valorização das indígenas idosas.

Com certeza há guerreiras anônimas desenvolvendo diversas mudanças na sociedade por todo país, precisamos conhecê-las e apoiá-las.

Por fim, esclareço que o título do texto é uma pergunta do meu filho. Ele diz que se todos têm direitos iguais deveria haver um dia para homenagear os homens. A questão poderia ser levada as salas de aulas para que as próprias crianças pudessem respondê-la.

Fontes:

¹ Tenório, Cibele. Portal EBC, Indígenas inspiradoras: conheça a história de cinco mulheres. 19/04/16.

² Soares, Jéssica. Revista Super Interessante, 5 importantes nomes da luta por direitos humanos no Brasil, por Jéssica Soares. 3/07/2013.

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Odete Loureiro
Sobre o autor

ODETE MARIA LOUREIRO RIBEIRO é Assistente Social e trabalha atualmente no Poder Judiciário (RJ), lidando diretamente com questões relacionadas a crianças em situação de risco e pais candidatos a adoção. A Odete cursou Especialização e Mestrado Profissional em Gerontologia na Espanha (Universidade de Salamanca), é autora do livro “Adoção", pratica yoga, meditação, é vegetariana e adora uma boa foto.

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