Famílias no coletivo

Foi numa conversa informal com a Kátia, minha mulher, sobre uma aula da pós-graduação em Direito do Trabalho que ela cursava (concluiu, graças a Deus), que me veio um “estalo”: fazemos planos para cada um da família, mas não fazemos planos para a família.

Deixem-me contextualizar vocês: segundo ela, o professor dizia que o brasileiro é um insano, pois é capaz de abrir uma pequena empresa, pagar um sem número de taxas para isso e ainda contratar empregados, que lhe custam mensalmente pelo menos o dobro do que efetivamente paga de salário.

Dizia o Mestre que em outros países quando vemos um pequeno negócio podemos apostar que há uma família inteira envolvida nele. Se é um café, por exemplo, vamos ver a mãe na cozinha, o pai no caixa e os filhos servindo a mesa e é claro que as funções variam, se misturam e revezam. Outros negócios também são assim.

 Comecei a “viajar” e lembrar das pastelarias dos orientais, em que a gente vê aquele monte de olhos puxadinhos trabalhando sorridentes e falando em seu incompreensível (para nós) idioma; me lembrei dos “alemão da roça”, que vem em peso, vermelhos e simpáticos, vender seus produtos nas feiras livres e gostam de contar que um filho plantou, outro colheu, o outro construiu a bancada, o outro tem mais habilidade para vender, o outro veio dirigindo a Kombi…

 Me peguei pensando que gostaria que meus filhos pudessem estudar na Europa, que preciso me esforçar mais e trabalhar mais para conseguir tornar isso possível, enfim, me peguei novamente planejando individualidades dentro da família, não a família em si.

 Quando concebemos um projeto para nossos filhos, além de roubar-lhes o desejo, mostramos o caminho do individualismo e acabamos os empurrando para a posição de centro do universo. O suor dos pais é produzido tão somente para a satisfação de um sonho que ele não sonhou e, como ele não sonhou, não é justo que ele lute para realizar.

 A falta de um projeto coletivo de família acaba trazendo para o ombro dos pais um peso que eles nem sempre tem condições de carregar e a consequência costuma ser a de filhos que não pensam em nada além de si mesmos. Ora, foram treinados para isso, foram criados para aceitar como natural que os pais deixem de comer para alimentá-los. Não veem como ato de amor, mas como mera obrigação.

 Pessoas assim não respeitam o outro porque sequer são capazes de conceber sua existência. Outro é alguém que tem potencial para ocupar o seu lugar, o que não acontece com quem foi concebido para servir. Criamos monstros, que estacionam seus carros em vagas de deficientes e sobre faixas de pedestres, que não pensam duas vezes antes de apertar um gatilho. Se não existe para me servir, não serve para viver.

 Confesso que não tenho nada pronto na cabeça e nem sei se o que escrevo tem alguma razoabilidade, mas continuo convicto de que é na família que os seres são forjados e que uma família que não se concebe como um coletivo permite que o individualismo impere.

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José Eduardo
Sobre o autor

JOSÉ EDUARDO COELHO DIAS é advogado especialista em Direito de Família e Sucessões. Estudioso da psicanálise, foi membro da Escola Lacaniana de Psicanálise de Vitória e participou, ainda, de outras associações psicanalíticas de abrangência nacional. Conta com artigos publicados em revistas e livros especializados, além de jornais e outras publicações.

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