DOZE, DOSE

Acordei doze para as seis. Antes do despertador, programado para dez para seis. Mal sabia que nesse dia o doze adornaria com luzinhas piscando e explodindo todas as vezes que eu tentasse fechar os olhos, de noite, para dormir.

Uma dúzia nunca foi lógica para mim. Deve ser porque tinha sempre que, envergonhadamente, comprar uma dúzia de ovos no Seu Gouvêa para almoçarmos. A tabuada decorada nos Estados Unidos é até doze, descobri nos doze meses que passei ensinando numa escola por lá. Quando eu tinha doze entrei para uma comunidade religiosa. No dia doze de junho meu pai parou de beber para sempre. Minha irmã nasceu nesse dia… ainda bem. Ela cuidou de todos enquanto meu pai bebia. Eu tinha medo da Rua Doze no Bairro República. Meninos me batiam nela. Era mais segura a rua da escola, a Rua Sete. Mas eles me batiam lá também. Há pouco, fiquei doze dias no hospital, minha coluna tem “meio doze” de parafusos.

Então, sobre o dia do não dormir pensando no doze…

Cheguei as vinte duas. Desbloqueei o celular e tinha duas mensagens piscando. “João, não sei o que fazer, minha aluna de doze anos foi estuprada por um cara de vinte e dois. Ela está grávida. O pai acabou de morrer. A mãe internada. Ela tem socado a barriga pra ver se mata o filho, o irmão mais velho até a surrou para ver se ela aborta. A escola disse pra eu não me meter, mas lembrei da sua luta pelos pequenos na escola. Não consigo ficar sem fazer nada.”

Respirei. Trabalhei quinze horas. Não tinha forças para entender o mundo, entender o descaso social… me entender nesse processo. Desesperançado abri outra mensagem.

“João, me ajuda”. Quase não li o resto. “Meu aluno de doze anos disse que é gay. Que está namorando com outro menino, também de doze. Expliquei-lhe que não era uma boa idade para namorar. Que poderiam ver filmes, passear, mas que era muito cedo ainda para namorar. Bom, hoje ele veio me procurar e dizer que o namoradinho dele está insistindo para fazerem sexo. Tenho medo de que ele faça isso. O pai dele está preso. A mãe vai mata-lo se descobrir. O que é que eu faço?”

Preciso de uns doze dias para começar a me recuperar de tudo isso

… esqueci…

não tenho nem doze horas.

Amanhã cedo precisaremos com nossa parca e irrelevante vida tentar dar conta da vida de dúzias de outras crianças.

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João Porto
Sobre o autor

JOÃO PORTO é professor de artes visuais, Mestre em Educação e Linguagens pela Universidade Federal do Espírito Santo e cursou Doutorado em Educação e Práticas Inclusivas no PPGE CE UFES e UTEP University of Texas at El Paso. Publicou diversos artigos científicos em revistas e livros especializados.

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