Resident Evil

Primeiro dia: foquei em pequenos rubis vermelhos. O restante do desenho era em preto e branco. Fui abrindo os olhos. Um moço caído com ferimentos à bala, certeiros. Peito, cabeça, pernas e braços. Um cachorro correndo assustado. Um brutamontes com dentes vampirescos e uma arma empunhada num ângulo improvável para um pulso humano.

Segundo dia: o mesmo brutamontes desenhado, atirando na cabeça de uma mulher que se desfazia em raios de explosão, como num jogo de uma circunferência, quando nem ainda aprendera geometria. Os dentes, do malfeitor, igualmente expostos como no primeiro dia.

Terceiro dia: o brutamontes estava lá, grafite forte no papel ofício-sem-ofício, exibindo uma arma na mão e um facão na outra. Camisa listrada, sorriso satânico.

Quarto dia: elogiei o grande artista com a mãe, porém expus a temática. Ela desconsiderou e disse que eu estava enganado, que deveria ter sido de algum filme. Nem olhou direito os desenhos. Saiu dizendo que tinha mais o que fazer.

Quinto dia: ele com olheiras muito profundas. Um esforço exaustivo para usar a régua. Uma casa totalmente simétrica. Perfeita. Nuvens. Céu azul. Sol com sorriso. Pintura contida. Puro romantismo. Uma caligrafia artística que não era dele. Na minha mesa, ele, olhar caído e um desejo explícito pela minha aprovação. “Muito lindo. Parabéns.”

Sexto dia: socou as costelas de outro. Chamei para a conversa. “Eu não consigo dormir, as vozes não deixam.” As olheiras ainda mais escuras. “Tomo muitos remédios para dormir e também porque sou muito violento, se eu bater em outra criança não consigo parar. Bato pra machucar.” Algumas lágrimas. Me abraçou. “Eu tenho medo de matar alguém quando eu bato.” Ainda abraçado, a turma quietinha produzindo com seus maravilhosos e brilhantes gizes de cera. “Você não vai matar ninguém. Você é um menino, bom. Você tem nove anos. Vai crescer, trabalhar, ter filhos, levá-los para ir pescar na represa. Eles vão te amar. Você vai amá-los.” Eu nem sabia o que dizer. Seus olhos me arrasavam. Eu não queria soltá-lo. Não podia deixá-lo. “Sua mãe te falou que conversamos?” “Falou. Disse para eu desenhar com a régua. Disse que eu vi um filme, Resident Evil.”

Sétimo dia: cheguei com respostas de um atendimento psicológico. Ele não foi.

Oitavo dia: ele não foi.

Nono dia: fui transferido de escola por motivos outros.

Tricentésimo décimo primeiro dia: ainda quando fecho os olhos, no travesseiro, penso se ele teve outros dias. Penso em Resident Evil. Penso em Norma Bates. Penso no pequeno Norman. Penso nele pescando na represa com os filhos. Penso que toda essa realidade fantástica, bem poderia ter sido um sonho… um angustiante sonho ruim.

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João Porto
Sobre o autor

JOÃO PORTO é professor de artes visuais, Mestre em Educação e Linguagens pela Universidade Federal do Espírito Santo e cursou Doutorado em Educação e Práticas Inclusivas no PPGE CE UFES e UTEP University of Texas at El Paso. Publicou diversos artigos científicos em revistas e livros especializados.

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1 Comments
  • Newcastle United have admitted that if they were look to elsewhere for a head coach, they would consider British or foreign candidates – but he’d need to be ‘tactically astute.’ Newcastle United confirm potential new head coach could be British or from overseas but he MUST be ‘tactically astute’

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