Pai, não vês que estou queimando?

Pai não vês que estou queimando… Essa frase sempre me chamou a atenção desde os tempos de estudo da psicanálise, mas me pergunto se ao invés de o filho ter falado ao pai, não vê que estou queimando, se fosse o pai dizendo, “filho não vês que estou queimando de saudade”?

Muito se diz sobre a separação, sobre o rito da separação, sobre o quanto a mulher fica com a carga da educação e dos custos, que a pensão nunca é suficiente… mas será que alguma vez alguém quis se atentar no sofrimento de um pai que tem que se ver longe do filho, mesmo que esse tenha vindo de forma planejada ou não?

O amor de pai não está em jogo, nem pode estar, quem é pai sabe. Sentimos uma dor profunda com a perda da convivência, nos enfiamos de cabeça no trabalho e, quando a jornada acaba, muitas vezes “erramos” o caminho de casa, passamos na rua do prédio dele com a esperança de ver mesmo que por fração de segundos o filho, ou vamos para lugares com muito movimento para tentar tamponar o vazio que foi criado, claro muitas vezes por nós. É a paga que temos por ter feito escolhas mal feitas.

Eu ainda acredito na lei, creio que um dia a imparcialidade existirá nos tribunais, penso ainda que a criança deve ser ouvida (eu disse ouvida e não escutada): quem ouve entende o sentimento e vê a dor da alma, quem escuta somente escuta e, como se diz popularmente, entra por um ouvido e sai pelo outro. A lei é cega, mas não é burra. Sabemos que no jogo dos tribunais ganha quem se defende melhor, mas a questão que fica é: -“Por que devemos nos defender quando o bem da criança vem do bem estar dos pais?”

Está certo que pelas leis o pai tem que cumprir sua obrigação para com o filho, e isso na forma da lei significa pagar a pensão. Mas pagamos com corpo e com a alma e com o dinheiro, o afastamento, a falta que nos faz o filho(a), as vezes somos obrigados a nos afastar pois vemos que todos os subterfúgios que são usados, somente existem para uma disputa de poder sobre a criança, com o único intuito de ganhar mais dinheiro… que pena.

Quantas vezes escutamos “coitada da mãe..” “ela é mãe e pai junto…” isso é de uma mentira imensa e de uma maneira de tentar ridicularizar ou de negar a existência do pai,e o pior lhes digo, mostra o quanto essa mulher ama esse homem, pois ela o promove com esse comportamento e faz com que o filho pense e se questione se esse pai é isso mesmo que sua mãe diz.

A verdade é que mesmo ausente o pai é presente no simbólico do filho. Quem nunca viu nesses programas populistas que “encontram entes desaparecidos”, a voracidade do filho em encontrar o pai desaparecido que nunca pagou pensão e que largou da mulher quando disse que ia comprar um maço de cigarros e nunca mais voltou. O Pai mesmo ausente e desaparecido povoa o imaginário do filho, e esse fará tudo para encontra-lo e mesmo que por curiosidade vai perguntar a ele… Por que?

Acredito que a reflexão mesmo no litígio tem que existir, acredito que é hora de termos de pensar no bem estar da criança, e que não podemos ser reféns de vontades ou de mesquinharias, e temos que pensar no bom desenvolvimento da criança, e por mais que seja difícil, devemos buscar o dialogo, mesmo que seja mediado por advogados.

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Felipe Candido da Rocha
Sobre o autor

Felipe Candido da Rocha é Brasileiro - Carioca - Tijucano e Rubro Negro de Nascimento. Graduação em Psicologia, é Especialista em Envelhecimento Populacional e Saúde do Idoso pela FIOCRUZ/ENSP. Psicanalista, é casado e pai de 2 filhos biológicos e muito pai de um filho do coração.

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