Uma jibóia com um elefante dentro (esquizoeducação)

Alguns vizinhos à espreita. Não conseguia ele mais ter vergonha. O quintal era a sua casa, o sol seu aquecedor, a noite seu ventilador. Ainda nu, amarrava a sacola e enterrava com o resto de humanidade que ainda tinha. Nos estacionamentos, prostituir-se era uma herança, homogeneizado à força. Remédios. Drogas. Fome. Deus. Monte. Oração.

Diante de mim, após relatar a mais desgraçada das vidas, entre tiques e com os olhos dançando nas órbitas, suspirou e disse: “vou matar a professora, hoje me controlei para não apertar o pescoço dela até o sangue sair igual lágrima, fui ‘no’ monte orar e Deus me mandou matá-la.”

Do meu lado da mesa a vida parece mais fácil. Saí do meu lugar-coordenador. Sentei ao lado dele. “Deus é muito poderoso, quando ele quiser matar alguém ele mesmo mata, entendeu?”, nossa e falar isso também pareceu fácil. Mas não foi. Psicologização desenfreada de quem tem que se formar com a vida de professor. Ele: “Sabe que você tem razão? Fica tranquilo não vou matar a professora.”

Acredito em quem fala com Deus, desconfio de quem ouve Deus, logo disse para ele ir à praia, dar uns mergulhos, dei-lhe um livro – infelizmente ‘o pequeno príncipe’ – e que não haveria aula no dia seguinte, sexta, e nem segunda… Corri contra o tempo. CRAS que já sabia que ele queria matar a professora e não informou à escola. Família, que desligou o telefone na minha cara diversas vezes. Secretaria de Educação, psicólogos, parapsicólogos, exorcistas, advogados, mães de santo e outros entes. Ninguém, nenhum eco reverberando meus gritos. Por uma questão de direitos ele teve que ser mantido na escola. Mudei-o de sala, para desviar o foco que era na professora.

O sangue ensopou o professor de história. Ele segurava um moço com um corte que por pouco não alcançou a jugular. O pedagogo debruçado tentando conter o outro, nosso ‘pequeno-grande príncipe’, que segurava firmemente uma tesourinha aberta – daquelas sem ponta, para cortar papel – enquanto urrava e gritava “ele me disse que ia me matar… ele me disse que ia me matar!”. SAMU não quis entrar. PM não quis entrar. Direitos Humanos acionado. Enfim maca. Hospital. Pessoas atônitas. Um costurado e um trancafiado. Filhos de uma nação mais esquizofrênica que eles.

Porém antes de ir… de ser “desmatriculado” da escola, pela sua desgraçada vida, ele sentado à mesa do deserto, com a raposa ao lado, lembrando da rosa que deixara em seu planeta, ia sendo algemado. Seus os olhos não mais ziguezagueando nas órbitas, mas fitos num horizonte imaginário, aquele ser não-cativado, sem alguém eternamente responsabilizado por ele disse: “acho que eu quero ir para a detenção em Cariacica, me disseram que lá tem cama ‘direitinho’… e comida… e três baobás.”

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João Porto
Sobre o autor

JOÃO PORTO é professor de artes visuais, Mestre em Educação e Linguagens pela Universidade Federal do Espírito Santo e cursou Doutorado em Educação e Práticas Inclusivas no PPGE CE UFES e UTEP University of Texas at El Paso. Publicou diversos artigos científicos em revistas e livros especializados.

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