Laços de família

Fui criada numa família tradicional, no estilo “estruturada”, como alguns gostam de se referir a um modelo composto por pai, mãe e filhos.

Fomos criados da mesma forma, com as mesmas regras, embora fôssemos duas meninas e um menino. Tudo bem, vou falar a verdade, o menino foi criado com mais privilégios, por ser menino. Podia mais coisas por ser menino e tinha menos obrigações caseiras, por ser menino. Aprendemos a ser machistas nessa família. Aprendemos que só se é “normal” se tivermos uma casa, um emprego fixo, filhos e contas para pagar.

Um de nós fugiu a regra. O menino. Depois da morte dos nossos pais, andou por esse “mundão”, usando drogas e morando na rua. Todos sentiam pena dele e de sua falta de liberdade, de sua falta de casa, de emprego e de contas para pagar. Nunca, acredito que posso afirmar que nunca, ninguém perguntou a ele se ele era feliz. Nunca a ele foi perguntado o porque das drogas e porque das ruas.

Depois de 16 anos resolvi perguntar. E a resposta não me surpreendeu: “Estou feliz! Sou feliz!”. Ele vive de sua arte, vive na rua, sofre os preconceitos e os estigmas impostos pela sociedade capitalista individualista a qual vivemos, mas é feliz. Encontrou nos hippies uma nova família, uma comunidade na qual pôde ser incluído sem julgamentos. Muitos de nós devem estar pensando: como ser feliz sem poder de consumo? Como ser feliz sem poder ter? Então, hoje descobri que minha luta contra o capitalista é nada frente ao embate do meu irmão. Ele sim nega o sistema e simplesmente vive. De uma forma diferente, nem melhor, nem pior, vive.

E depois de 16 anos eu compreendi que somos uma família. Com suas diferenças de concepção de vida, de trabalho, de felicidade, de lazer, enfim, os laços que nos unem são mais fortes: o sangue e o amor. O amor que nossos pais nos ensinaram e que nos deixaram como herança. E é o mesmo amor que estamos cultivando em nossas filhas e filhos, criando-os sem preconceitos e com respeito ao tio, fazendo-os admirar seu talento (ele é um artista).

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Fabiola Cerqueira
Sobre o autor

FABIOLA CERQUEIRA é Mestre em Educação, Especialista em História das Relações Políticas e Licenciada em Ciências Sociais e Pedagogia, atuando como Professora da Rede Estadual do ES e da Rede Municipal de Vitória.

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