Pais de Facebook

 De uns tempos para cá tenho percebido, em meus atendimentos em casos envolvendo menores, o surgimento de um novo tipo de pai (e mãe também): os pais de Facebook.

 Pais de Facebook não tem publicamente qualquer problema para criar seus filhos, que sempre aparecem sorridentes e bem vestidos nas selfies clicadas em restaurantes bacanas, lojas de brinquedos, shoppings, parquinhos e até mesmo em igrejas.

 Pais de Facebook fazem sempre questão de deixar claro para todos que apoiam seus filhos e que estão presentes em suas vidas. Fazem isso em seus perfis de redes sociais dimensionando estratosfericamente a relevância da nota 8 que o filho tirou na prova de “ciências” da 3ª série, com direito a foto de Einstein ao fundo para ilustrar a postagem, ou mesmo com frases do tipo “é isso aí, filhão”, “você é meu orgulho”, “assim você mata o papai” e outras nos comentários de postagens que seus filhos lançam nas redes sociais.

 Pais de Facebook fazem questão de deixar muito claro que seus filhos são extremamente educados, bonitos, inteligentes, enfim, perfeitos. Deixam claro, também, que essa perfeição só foi atingida porque eles são pais maravilhosos, atentos, cuidadosos, responsáveis. Seus amigos devem se orgulhar por terem a imperdível oportunidade de conviver com eles, pais de Facebook, que são pessoas confiáveis, de caráter, dignas de total confiança e respeito.

 O que as postagens não revelam são crianças angustiadas às cinco porque estão prontas desde as três, esperando um pai visitador que deveria ter chegado às quatro, mas que só lembra de ligar às seis dizendo que “teve um problema e vai se atrasar um pouquinho”.

 As postagens não revelam que alguns desses pais não sabem o nome de nenhum dos coleguinhas dos filhos, de um dos desenhos animados que eles gostam de assistir ou mesmo que tipo de música eles gostam de ouvir.

 Alguns desses pais nunca passaram cinco minutos estudando para a prova com seus filhos, nunca entraram numa loja de departamento para comprar sequer uma camisa branca e não tem noção de que os pés crescem, o sapato aperta, a calça já não cabe mais e que a camisa que era linda no verão vai permitir que a criança pegue um resfriado no inverno.

 Não falo aqui de dinheiro. Falo em convencer uma criança que a roupa que ela acha “irada” não veste tão bem assim. Falo em entender o processo de aprendizado da criança e ter paciência para sentar junto e ajudar a superar a dificuldade da tabuada.

 Falo de elogiar sinceramente um desenho horroroso, quando a criança nos entrega com olhos de orgulho, pois ela mesma está fascinada por ter conseguido fazer o seu melhor.

 Alguns pais só conseguem olhar para seus filhos quando buscam o melhor filtro para a foto a ser postada e tiveram pouca oportunidade de reparar nos olhinhos pidões, que não falam, mas gritam, que não pedem, mas imploram atenção, envolvimento, compromisso e compreensão.

 Pais de Facebook deveriam se importar menos com o que os seus amigos nas redes sociais pensam a seu respeito e entender que o seu mais importante seguidor não quer um post com “textão”, selfie com 159 “curtidas” ou coisas assim. Seu principal seguidor, pai de Facebook, só quer saber o que você pensa dele e o quanto está disposto a dar a ele o que é realmente necessário: atenção sem intenção, envolvimento, carinho, amor e, acima de tudo, compromisso.

 Talvez seja a hora de trocar o polegar para cima do “curti” por um abraço completamente off line.

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José Eduardo
Sobre o autor

JOSÉ EDUARDO COELHO DIAS é advogado especialista em Direito de Família e Sucessões.

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