Idosos em risco

Quando o Serviço Social recebeu o processo com determinação de urgência para avaliar a situação de uma idosa em risco, fiquei bastante apreensiva com os relatos do mesmo. A polícia esteve no local e a moradora não os recebeu. Segundo os policiais, havia a denúncia de que ali havia uma senhora sendo maltratada pela própria filha e que o companheiro desta era uma “pessoa perigosa”, envolvida com o tráfico.

A estagiária Jéssica Dias e eu fomos ao local e avisamos ao motorista Valdir (nosso fiel escudeiro) que se percebesse alguma situação de conflito que telefonasse para polícia. A casa estava fechada e tentamos abordar alguns moradores; os vizinhos nos alertaram que a situação era grave e que todos tinham medo de se envolver, que temiam pela vida da moradora, pois ela apresentava problemas mentais e parecia viver em cárcere privado. Depois de muita insistência a idosa nos atendeu. Ela estava mal vestida, com odor forte de urina e bastante assustada. Havia muito lixo no quarto onde ela dormia, porém o restante da casa estava arrumado. Ela estava desorientada e aparentava fraqueza. Por duas vezes quase desmaiou.

Imediatamente retornamos ao fórum e fizemos um relatório. A promotora solicitou a internação hospitalar da idosa e o juiz determinou que o Serviço Social, no mesmo dia, acompanhasse o oficial de justiça e os profissionais do SAMU durante a internação. Quando chegamos à moradia já era noite, a filha e o companheiro estavam no local e tentaram justificar que faziam o melhor que podiam pela idosa, mas ela muitas vezes se recusava a se alimentar e a manter as regras básicas de higiene. Fomos com a idosa ao Hospital. A filha disse que viria em seguida e não foi.

Abro parênteses para contar uma situação engraçada: quando estou cansada fico muito distraída. Então, quando o médico do Hospital liberou a nossa presença e esclareceu que ela seria internada para avaliação, o oficial de justiça e eu decidimos ir embora. Para sair do consultório, ao invés de abrir a porta em direção à saída, abri a porta de um armário. O oficial de justiça, ao ver a cena, saiu rindo do local e no dia seguinte falou para alguns colegas do fórum que eu conhecia um novo caminho para Nárnia.

No dia seguinte, o juiz Dr. Daniel Konder determinou que buscássemos algum familiar que pudesse assumir a curatela da idosa. Esta recebia uma considerável quantia de pensão do marido falecido, porém a filha havia realizado diversos empréstimos e o valor estava bastante reduzido. Localizamos uma sobrinha que prontamente foi ao Hospital e passou a cuidar da tia e assumiu a curatela da mesma.

É noticiado com frequência que a sociedade está envelhecendo. Os casos de idosos que estão sofrendo maus tratos e/ou sendo explorados financeiramente pelos próprios familiares têm aumentando a cada ano. As denúncias são mais frequentes junto aos CREAS (Centro de Referência Especializado de Assistência Social) e junto as Promotorias de Idosos. Os Conselhos Municipais de Idosos precisam ser mais atuantes. Por outro lado, muitos casos não chegam aos órgãos responsáveis porque os próprios idosos protegem o familiar que o explora e/ou o maltrata. Em longo prazo, um dos caminhos seria que a valorização da velhice seja tema nas escolas, visando que as crianças tenham um olhar de proteção e respeito para com os familiares idosos. Que estes sejam convidados a falar de suas experiências para os alunos e assim uma troca entre as gerações poderia vir a favorecer ambos os lados. Urge, em curto prazo, que todos nós divulguemos o Estatuto do Idoso!

Voltando ao caso que acompanhei: Próximo ao natal do ano passado, estávamos sobrecarregadas, pois tentávamos resolver o maior número de processos possíveis antes do recesso de final de ano. Então, compareceram a nossa sala a idosa e a sobrinha e por um momento e com certo desespero pensei que a sobrinha estava “devolvendo” a tia, pois sabíamos o quanto a idosa necessitava de atenção constante e lhe causava muito trabalho. Mas, ao contrário, elas estavam ali para desejar a mim e a estagiária um “Feliz Natal” e para que víssemos que a idosa havia arrumado todos os dentes e estava mais saudável. Foi uma alegria: nos abraçamos e eu me sentia aliviada e com a sensação boa de que fizemos a diferença na vida daquela senhora.

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Odete Loureiro
Sobre o autor

ODETE MARIA LOUREIRO RIBEIRO é Assistente Social e trabalha atualmente no Poder Judiciário (RJ), lidando diretamente com questões relacionadas a crianças em situação de risco e pais candidatos a adoção. A Odete cursou Especialização e Mestrado Profissional em Gerontologia na Espanha (Universidade de Salamanca), é autora do livro “Adoção", pratica yoga, meditação, é vegetariana e adora uma boa foto.

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