Telefunken 14 polegadas

“Até hoje lembro-me das marcas deixadas em suas costas por pais adotivos malucos. Ele tem dito que vão ‘devolvê-lo’ ao abrigo. Muitas vezes quis que ele fosse meu filho.”

O céu estava cinza, talvez preto e branco. Talvez uma escala do branco ao negro, passando por vários cinzas. Daqueles dias inevitáveis para se pensar sobre o sentindo da vida. As gotas de chuva alternavam entre grossas e muito grossas… não vinham mais, carinhosamente, como nos dias anteriores.

Olhei pela janela, observei o gotejamento. Pensei em Filipe, que tem dormindo na floresta de eucaliptos perto da escola. Pensei em por que Gustavo tinha parado de aparecer no vidro do balcão acenando e sorrindo para mim. Vi Ana Julia correndo na chuva porque a vida lhe dera uma maneira diferente e ‘especial’ de viver. Vi a estagiária responsável por ela, correndo na chuva por que a vida lhe dera uma maneira diferente e especial de viver. Pensei se o marmanjo do carro já tinha parado de assediar Renan. Lembrei-me do dia que tomei a faca do Jeferson, também chovia.

Mas de todos os pensamentos – talvez porque há tempos penso em adotar – não parava mesmo de pensar em Gabriel. Até hoje lembro-me das marcas deixadas em suas costas por pais adotivos malucos. Ele tem dito que vão ‘devolvê-lo’ ao abrigo. Muitas vezes quis que ele fosse meu filho. Ele disse que não toma leite. A “mãe” não deixa, só deixa o meio-irmão, que é filho legítimo do marido que ela ama. Um dia perguntei se gostava do Bob Esponja: “Não sei quem é, não vejo TV”. Como assim uma criança que não vê TV? Também não podia, só ouvia do quarto.

A chuva, porém, trouxe outras coisas… tava lá a coordenadora arrastando uma TV de 14” pelo pátio interno: “João, na saída, leva na casa de Gabriel para mim? Ele tem direito de ser feliz nessa vida.” Veio ele dobrando as mangas de uma camisa que acabara de ganhar da Professora Regente, sorridente por causa da TV. Me mostrou o chinelo novo, que veio de um outro professor. Me deu um abraço.

O professor de Educação Física foi com ele. Não fui levá-lo em casa. Não sei se conseguiria deixá-lo descer do carro. Voltei para dentro da sala. Corri na janela e vi o carro se afastar. Agora chovia no meu rosto. Senti-me acinzentado. Eu era um filme mudo e a paisagem continuava, infelizmente, em preto e branco.

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João Porto
Sobre o autor

JOÃO PORTO é professor de artes visuais, Mestre em Educação e Linguagens pela Universidade Federal do Espírito Santo e cursou Doutorado em Educação e Práticas Inclusivas no PPGE CE UFES e UTEP University of Texas at El Paso. Publicou diversos artigos científicos em revistas e livros especializados.

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