O papel da escola na educação de crianças e adolescentes

É comum lermos ou ouvirmos a frase “a escola ensina e a família educa”. Toda vez que a leio ou a escuto fico incomodada, pois esta frase remete-me ao processo de socialização primária, conceito defendido por Berger e Luckmann (1978) e refere-se à internalização das regras e normas sociais do grupo a que fazemos parte e, segundo os autores, ocorria na instituição familiar, a qual é a primeira a que temos contato. Importante ainda destacar que, já na década de 1970, para os citados autores, esse processo seria mediado por qualquer adulto com o qual a criança tivesse algum vínculo afetivo. As crianças tem chegado à instituição escolar cada vez mais cedo e lá permanecido cada vez mais tempo, logo, esse processo de socialização primária, a meu ver, é mediado, hoje, por família e escola, o que não ocorria antes da inserção da mulher no mercado de trabalho. Com o passar dos anos a criança passa a ter contato com outras instituições sociais e assim vai incorporando as regras e normas sociais necessárias para o convívio social. Vai se tornando, de acordo com Emile Durkheim, um ser social.

A educação escolar hoje, como já mencionado, nos primeiros anos de vida (há crianças nos Centros de Educação Infantil com 6 meses de vida), media, junto à família, o processo de incorporação das regras e normas sociais. Além disso, cabe à escola ensinar às crianças e adolescentes os conhecimentos científicos historicamente acumulados pela humanidade. Cabe ainda, educar para a cidadania e para o respeito às diversidades, conforme nos aponta a Constituição Federal e Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional. A formação inicial dos professores os prepara, também, para estes processos e cabe às Secretarias de Educação dar continuidade à formação para que os docentes estejam atualizados nos seus conhecimentos e práticas. A função social da escola é formar sujeitos autônomos, protagonistas e cidadãos, conhecedores das regras e normas sociais, as quais os possibilitará, numa perspectiva durkheimiana, viver em sociedade.

Quando o estudante demonstra não ter incorporado as regras sociais, geralmente seus responsáveis são chamadas à escola para que juntos possam auxiliá-lo a integrar-se à escola. Nunca chamamos a igreja, porque entendemos que não é a a escola o espaço para que os religiosos ajam ou interfiram, assim como a escola não deve interferir no contexto religioso de nenhuma criança ou adolescente.

No entanto, quando a igreja, representada, por legisladores religiosos tentam impedir que os temas da diversidade adentrem o currículo escolar e sejam trabalhados com os estudantes na perspectiva da ciência estão intervindo, de forma equivocada na escola pública, tendo em vista ser o Estado Laico, o que pressupõe que nenhuma denominação religiosa pode intervir na vida privada ou nos direitos civis dos cidadãos, assim como o Estado não pode determinar as doutrinas religiosas, exceto em caso de violação à vida humana.

Tudo isso dito para afirmar, veementemente, que não existe “ideologia de gênero” no Brasil, muito menos nos currículos escolares. Existe a necessidade de trabalhar a desigualdade de gênero, que perpassa pelo machismo, pela violência contra a mulher, pelos baixos salários pagos às mulheres; existe a necessidade de tratarmos do racismo e de rompermos política e ideologicamente com o mito da democracia racial; existe a necessidade de combater a homofobia e de reconhecer e respeitar a diversidade sexual para que pessoas deixem de ser mortas porque amam pessoas do mesmo sexo; há necessidade de enfrentarmos os preconceitos religiosos que determinam as verdades sobre Deus e assim, contrariam o maior ensinamento do Criador que é amar ao próximo como a ti mesmo. Vejo um retrocesso na humanidade. E remeto meu pensamento aos conhecimentos bíblicos e vejo Jesus em meio aos fariseus, com seus livros religiosos debaixo do braço conspirando contra o homem, enviado por Deus, para os cristãos, e que enfrentou o sistema político de sua época, pregou o amor ao próximo, viveu o amor ao próximo. Os cristãos de verdade saberão compreender que o momento atual exige amor. Os religiosos de todas as denominações saberão compreender que o momento exige amor. E respeito. Simples assim.

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Fabiola Cerqueira
Sobre o autor

FABIOLA CERQUEIRA é Mestre em Educação, Especialista em História das Relações Políticas e Licenciada em Ciências Sociais e Pedagogia, atuando como Professora da Rede Estadual do ES e da Rede Municipal de Vitória.

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