A entrega de um recém-nascido

Certa vez  acompanhei um casal que pretendia entregar seu filho em adoção. Na verdade, a mulher desejava entregá-lo (estava no final da gestação) e o companheiro não, mas ele falou que entendia e apoiava a companheira. Os argumentos dela eram de que não tinha condição financeira para cuidar de mais um, pois já tinham dois filhos; o casal era bastante jovem e desempregado. Ele estava no mercado informal e a única renda fixa da família era a do Programa Bolsa Família (R$300,00).

A residência muito pobre, daquelas em que o banheiro ficava fora, no quintal. Um só  cômodo era servia para acomodar tanto o dormitório da família quanto a cozinha. A casa sem piso, só de terra batida…

A estagiária Jéssica Dias e eu, como funcionárias do Serviço Social do Poder Judiciário, fizemos o possível na ocasião para tentar oferecer a melhor solução para o caso. Contatamos a família extensa para verificar se algum parente poderia assumir a guarda do bebê e nada. Conseguimos doação de cesta básica, medicação, encaminhamentos diversos para os órgãos da Prefeitura, mas sabíamos que a família seria pouco assistida, dado à precariedade dos recursos do Município. Solicitamos que o CRAS (Centro de Referência de Assistência Social) acompanhasse o caso.

Quando o bebê nasceu, fomos visitá-la no Hospital e lá constatamos que ela desistiu da entrega.

Meses depois uma nova gestante procurou o fórum com a intenção de entregar o filho em adoção. Ela também tinha dois filhos e estava desempregada. O namorado, quando soube da gravidez, revelou que era casado e desapareceu. A mãe da gestante, também muito pobre, apoiava a filha na decisão. Como prova de amor, a gestante realizou o pré-natal e buscou fazer o melhor possível pelo filho durante a gravidez. Era uma mulher bonita, envelhecida pelas dificuldades da vida. Ela estava sofrendo com a decisão, mas segura de que era a única saída para oferecer o melhor possível para as duas filhas sob seus cuidados e para o filho que estava para nascer.

A gestante solicitou que, se possível, não fosse questionada pelos funcionários do hospital sobre sua decisão, disse que gostaria de ficar em um local separado das outras mulheres internadas e não pretendia ver o filho após o nascimento. As assistentes sociais e a psicóloga do Hospital tiveram um papel importante nos dois casos e conseguiram que os desejos da mãe fossem atendidos.

Admiramos a demonstração de respeito dos profissionais que estavam trabalhando no setor de obstetrícia para com a parturiente. Fomos, eu e a estagiária, entrevistá-la após o nascimento. Ela poderia desistir, pois é um direito que a lei lhe garante. Entretanto, manteve a entrega. Era visível o seu sofrimento, foi chorando registrar o filho. Meses depois a atendemos novamente e ela estava mais tranquila porque estava ciente de que havia feito o que deveria para proteger os filhos, por amor.

Do outro lado dessa história, havia uma candidata à adoção solteira, aguardando ansiosa se a parturiente entregaria ou não o bebê. Ela e a família se sentiam “grávidos”, mesmo sendo uma gravidez totalmente sem garantia. Quando comunicamos que ela poderia visitar o bebê no hospital e levá-lo em guarda (há um período até que a adoção seja determinada) foi uma emoção sem tamanho. Estivemos presente na hora da entrega e tive que me controlar para disfarçar a enorme emoção que também estava sentindo. Literalmente “engoli” o choro.

Nós sentíamos uma mescla de pesar pela mãe biológica, que saiu sem o filho, e muita alegria pela mãe que estava recebendo o filho – aguardado durante quatro anos na fila de adoção. Destacamos que este bebê foi amado durante a gestação, inclusive tal situação é bastante diferenciada em relação aos outros casos que já acompanhamos. Infelizmente, muitas crianças que vão para adoção sofreram algum tipo de maus tratos pela família biológica.

O bebê da nossa história é lindo e muito amado pela mãe, avó, tio e outros familiares. Quando encontramos a mãe adotiva pelas ruas da cidade ela é “só sorrisos”, sem o menor exagero. A maternidade lhe trouxe outra aparência: mais beleza, leveza e felicidade. Inclusive, voltou para fila de adoção.

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Odete Loureiro
Sobre o autor

ODETE MARIA LOUREIRO RIBEIRO é Assistente Social e trabalha atualmente no Poder Judiciário (RJ), lidando diretamente com questões relacionadas a crianças em situação de risco e pais candidatos a adoção. A Odete cursou Especialização e Mestrado Profissional em Gerontologia na Espanha (Universidade de Salamanca), é autora do livro “Adoção", pratica yoga, meditação, é vegetariana e adora uma boa foto.

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