Novas famílias existem

“Família é um espaço de amor onde não cabe qualquer tipo de preconceito, e uma pessoa conservadora, que ainda vive nos moldes antigos, talvez não alcance e nem entenda essa realidade”

A família hoje é bem diversificada e as extensivas já fizeram parte da história. Hoje elas são nucleares e podem ser monoparentais – aquelas em que um só progenitor é exclusivamente responsável por seus filhos biológicos ou adotivos. Ou que seja de pai desconhecido, cuja prole provenha de uma mãe solteira, opção de muita mulher moderna e independente.

Ou famílias recompostas, também conhecidas como entidades familiares reconstituídas ou plurilaterais, formadas por pessoas que se separam ou se divorciam e constituem, respectivamente, outra união ou casam novamente. Representam um número significativo nos dias atuais.

E uniões homoafetivas, que ganharam relevo a partir do momento em que o obsoleto modelo patriarcal e hierarquizado de família cedeu lugar a um novo modelo fundado no afeto. A propósito, as uniões entre pessoas do mesmo sexo pautadas pelo amor, respeito e comunhão de vida preenchem os requisitos legais em vigor, quanto ao reconhecimento da entidade familiar, na medida em que consagrou a afetividade como valor jurídico.

Enquadrar hoje as uniões homoafetivas dentro do âmbito da família é mais do que uma questão constitucional, trata-se de uma postura ética. Considerar uma relação afetiva de duas pessoas do mesmo sexo como uma entidade familiar não vai transformar a família, nem vai estimular a prática homossexual. Apenas levará um maior número de pessoas a saírem da clandestinidade e deixarem de ser marginalizadas.

A Constituição Federal confere igualdade de qualquer natureza, e liberdade às pessoas de ambos os sexos a adotarem a orientação sexual que quiserem. Qualquer discriminação configura claro desrespeito à dignidade humana, e infringe o que está estabelecido pela Constituição Federal e pela Declaração Universal dos Direitos Humanos. Infundados preconceitos não podem legitimar restrições de direitos servindo de fortalecimento a estigmas sociais e fazendo sofrer as pessoas. A maior polêmica do momento, causada pelo casal de idosas da novela Babilônia, não é somente pelo fato do casal ser homoafetivo e sim por ser representado por idosas. Como se idoso tivesse que ser, necessariamente, um ser assexuado!

Segundo dados do IBGE, foram realizados no Brasil, em 2013, 3.701 casamentos entre pessoas do mesmo sexo – 52% casais formados por mulheres e 48% por homens. Diante desses dados, se você ainda acredita que casamento só pode ser realizado entre pessoas de sexos diferentes, se você ainda acredita que casais homoafetivos não podem ter filhos, se você ainda julga a capacidade profissional e humanitária das pessoas pela orientação sexual, é chegada a hora de rever os seus conceitos.

Família é um espaço de amor onde não cabe qualquer tipo de preconceito, e uma pessoa conservadora, que ainda vive nos moldes antigos, talvez não alcance e nem entenda essa realidade. Mesmo que viva a falência do seu próprio casamento.

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Marilene de Batista Depes
Sobre o autor

Marilene de Batista Depes é professora aposentada, advogada, terapeuta corporal e mestranda em gerontologia. Casada há mais de 45 anos, tem 3 filhos e 6 netos. Escritora, pertence à Academia Cachoeirense de Letras.

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