Não há cansaço que esmoreça

“Resumo da ópera: casal separado sem termo final emocional da relação, divisão ilegal de duas filhas que, face à brincadeira de gato e rato que envolveu o ex casal desde então, nunca mais se viram”

Um amigo pediu para escrever. Estava sem vontade, mas escrever me descansa, de certa forma.

Pois foi assim que aconteceu: quase fim de tarde, eu sentada no banco da entrada do juizado, relembrando histórias antigas com antigos parceiros de trabalho (meus comissário e agente mais antigos). Entra um casal com duas crianças. Não cumprimentam ninguém. Marcham raivosos para o cartório. Logo depois, entra uma enorme turma que os acompanhava, muitos precisando receber camisas para permanecerem na sede do juizado porque, apesar de hoje estar frio, estavam com pouca roupa, todos falando alto e se comportando mais ou menos “eu pago seu salário, eu faço o que quero”. Todos saindo de um veículo de forma que me lembrei da hoje famosa van chinesa. Antevendo problemas dos quais não tinha que participar diretamente, voltei para o gabinete para continuar a despachar.

Vem Alexandre – meu comissário mais antigo, vinte anos de convivência, me conhece pelo olhar – e me entrega um ofício de uma delegada de polícia encaminhando o caso de regulamentação de guarda (em caixa alta) para o juizado. Depois de impropérios e reclamações de que a delegada sabia que regulamentação de visitas não era ali, percebi que ela sabia que não era ali e, se me mandou por ofício, isso serviria como código secretíssimo daquelas profissionais que se conhecem há mais de trinta anos. Muito bem, vai lá e ouve o caso e depois encaminha o casal e toda sua corte para a Defensoria Pública.

Alexandre volta e vaticina: doutora, esse caso é seu, tem que ser a senhora. Resumo da ópera: casal separado sem termo final emocional da relação, divisão ilegal de duas filhas que, face à brincadeira de gato e rato que envolveu o ex casal desde então, nunca mais se viram. A mãe conseguiu localizar o pai nesse estado, veio de outro estado com um séquito, entraram em vias de fato no meio da rua, atuais companheiros ajudando, novos filhos observando. Polícia militar chamada, para evitar uma tragédia leva para a delegacia. Como não havia – ainda – fato típico a ser autuado, mas diante do imbróglio, a delegada encaminha o caso para mim.

Muito bem, como estou desenvolvendo um novo projeto de mediação de conflitos, vamos tentar fazer algo. Reúna o ex casal na sala de audiências. Sentei, me apresentei e pedi que começassem a falar. Ambos portadores de uma grande prepotência que só acompanha aqueles que não conhecem a vida e não são portadores de nenhum direito do qual se imaginam senhores. Ao saber do sofrimento das crianças, imediatamente a mediadora se convola em juíza da infância e determina o basta. Ou se comportam como adultos, ou as crianças serão abrigadas. O ex casal vai tentar conversar na presença de uma assistente social. Eu mando chamar os tios, mas os tios não eram tios, eram novos amigos de igreja, mas tios já do coração, segundo o casal. Então obrigada, nada sabem informar do passado, podem voltar para o banco e aguardar.

Então chamem L., a pequenina cuja vida havia sido dividida, despedaçada e machucada. Ela chega e eu saio da minha cadeira e me sento junto a ela. L. é doce, inteligente, bem articulada. Me conta sua vida, revela suas saudades, demonstra sua dor com um choro silencioso e de muita dignidade, inconsciente, ainda, pela tenra idade, dessa dignidade que envolve sua sobrevivência emocional.

Após falar com L. chamo os atuais casais, desfio as advertências legais e morais aos quatro e concluo informando que apenas aceito um desfecho com acordo. Porque L. merece que sua vida seja envolta em paz, enfim.

E o acordo foi feito. E escrito pelo ex casal, por sugestão do policial que faz minha escolta, na mesa de entrada do juizado, já, imediatamente, na presença de todos. Escreveram à mão o fim da guerra desnecessária que destruía dois futuros indefesos.

E embora encerrado o expediente, todos permaneciam no trabalho – serventuários, vigilantes, comissários, policiais, assessor, motoristas, séquito da mãe. E testemunhamos todos o primeiro dia do resto da vida de duas irmãs. Graças à vida que nos permite testemunhar e compartilhar momentos de paz!

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Publicado originariamente no Blog Nos Caminhos da Infância: http://noscaminhosdainfancia.blogspot.com.br/

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Patrícia Neves
Sobre o autor

Patrícia Neves é Juíza de Direito Titular do 1º Juizado da Infância e Juventude de Vila Velha - ES e estudou Direito Penal Econômico e Europeu e Proteção ao Menor na Universidade de Coimbra - PT

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5 Comments
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