Amores indeléveis

“Todas as manhãs temia chegar para a aula e tê-lo perdido… Temia não vê-lo mais na fila. Temia que ele não tivesse conseguido retornar do mundo tão ilusório, de suas viagens mentais tão arriscadas, dos seus molestamentos em Praças de Desejo por tantos outros meninos perdidos.”

Amores indeléveis (João Porto)

Olhar concentrado… sempre que tentava escrever seu nome. Seu sobrenome não sabia escrever sozinho. Chegou agitado naquele dia, ansioso, pois tinha lhe prometido um caderno. Não via a hora de a aula começar. Na etiqueta eu já tinha escrito seu nome. Todos os dias ele vinha para nossa aula num centro de assistência para pessoas em situação de rua.

“Ei, podemos começar logo a aula, quero muito usar meu caderno.” Bateu a mão no meu peito e na estampa da minha camisa começou a apontar as letras do seu nome.

Dezoito anos. Todos os dias eu chegava procurando-o na fila do centro de atendimento, onde recebia uma pequena barra de sabão e três copinhos: shampoo, sabão em pó e cloro. Tomava um banho rápido, lavava a camisa, vestia o uniforme, tomava café e ia para a sala.

Todas as manhãs temia chegar para a aula e tê-lo perdido… Temia não vê-lo mais na fila. Temia que ele não tivesse conseguido retornar do mundo tão ilusório, de suas viagens mentais tão arriscadas, dos seus molestamentos em Praças de Desejo por tantos outros meninos perdidos.

“Então… bora… começar a aula”. Acho que o efeito do crack da noite ainda não tinha passado. Sentei-me ao seu lado. Pus-lhe o lápis na mão. Ele se acalmou e começou escrevendo seu nome, que era sua fração de vida, sua identidade. Observei uma tatuagem no seu braço. Priscila, estava escrito. “Quem é? Sua namorada?”. “Não, gosto de homem, mas ninguém acredita.” Falou firme, sem rodeios ainda com a cabeça baixa escrevendo. A tatuagem mais parecia com cicatrizes, queimaduras. “É minha irmã. Copiei”. “Que legal ter tatuado o nome dela no braço.” “Fiz com caco de vidro, antes de uma viagem. Precisava de alguma coisa quando eu estivesse perdido, para olhar e lembrar que eu tenho uma família que me ama, que eu não posso esquecer.” As lágrimas rolaram lentamente pelo canto do seu olho. “Tenho medo das drogas me fazerem esquecer que tenho uma irmã que está torcendo por mim.”

“Vou ali pegar umas canetas”. Levantei e já me dirigi ao armário chorando. Senti que tinha feito a primeira tatuagem da minha vida… no meu peito.

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João Porto
Sobre o autor

JOÃO PORTO é professor de artes visuais, Mestre em Educação e Linguagens pela Universidade Federal do Espírito Santo e cursou Doutorado em Educação e Práticas Inclusivas no PPGE CE UFES e UTEP University of Texas at El Paso. Publicou diversos artigos científicos em revistas e livros especializados.

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