Trocando em miúdos

“Trocando em miúdos, o mundo mudou, a sociedade mudou, as relações humanas mudaram e, é claro, o casamento também mudou. A lei baniu há tempos a necessidade de se apontar um culpado para o divórcio, de forma que ninguém mais precisa de motivos para ir embora, basta querer.”

Antes era possível olhar para a estante e, sem qualquer equipamento, identificar as sobras do que se chamava lar. Hoje, as sombras do que foram, as marcas de amor e as melhores lembranças estão gravadas no Facebook e no Instagram, mas basta um click para que desapareçam.

Na época em que o Neruda que alguém tomava e nunca lia era de papel e o disco do Pixinguinha era de vinil, as leis dificultavam ao máximo os casais que pretendiam por fim às relações conjugais. Hoje em dia, quando o melhor é esquecer aquela esperança de tudo se ajeitar, é só ir até um cartório levando a carteira de identidade, a impressão de que já vai tarde, alguns papeis, um advogado e, voilà, divórcio consumado!

Alguns se permitem a uma saideira. Depois batem o portão sem fazer alarde e saem sem dar a ninguém o prazer de lhes ver chorar. Outros resolvem cobrar pelo estrago: usam posts ora chorosos, ora sarcásticos, velados ou explícitos, lançados sem qualquer critério nas redes sociais, deixando suas chagas à mostra. Quando isso não basta, o Judiciário é inundado com dolorosas ações de indenização por danos morais.

Trocando em miúdos, o mundo mudou, a sociedade mudou, as relações humanas mudaram e, é claro, o casamento também mudou. A lei baniu há tempos a necessidade de se apontar um culpado para o divórcio, de forma que ninguém mais precisa de motivos para ir embora, basta querer.

Querer ficar tem relação com querer construir uma vida melhor para e com os que ficam, com ampliar a capacidade de suportar os defeitos do outro e com aceitar algumas renúncias. Neste mundo novo, as relações são construídas e renovadas a cada dia. A medida do Bonfim não vale nem garante mais nada quando o importante é polir todo dia a aliança, em vez de empenhar ou derreter.

Ninguém quer mais saber de peito dilacerado e isso nem é necessário. Ninguém é menos independente porque abre um pouquinho mão da individualidade pelo outro ou porque cedeu ao outro. Amor ainda existe e não há mal algum quando ele governa as relações.

(Publicado originariamente no Jornal A Gazeta, Vitória – ES, 05/04/2015)

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José Eduardo
Sobre o autor

JOSÉ EDUARDO COELHO DIAS é advogado especialista em Direito de Família e Sucessões.

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