Pour Annelise

Houve um tempo, mais remoto que o controle da tevê, que desejei ser pai. De um casal, como se óvulo e espermatozoide tivessem o poder de atender a pedidos qual geniozinhos da lâmpada da procriação. Tinha com os petizes uma relação de empatia imediata. Em qualquer lugar que tivesse uma criança, havia o momento em que ela se aproximava, me dava a mão, pedia abrigo e atenção. Minha mãe dizia que eu tinha mel para o paladar açucarado da meninada.

E gostava daquela turminha barulhenta, com sua inocência e crueldade misturadas em colheres iguais. Gostava. Sim, nobre leitor, amor conjugado no passado. Cansei das crianças a certa altura da vida. Imagino ter ficado insensível ao temperamento dos mimados e sem limites, sem paciência para as birras, intolerante a tanto pai permissivo e às mães que deitavam no colo das babás sua irresponsabilidade na educação do filho.

Amigos antenados com esta minha antipatia avisavam quando, numa festa ou encontro, eles, os pestinhas, dariam o ar da graça. Indisposto a embarcar na nave-mãe da Xuxa, esfarrapava desculpas pra disfarçar a ausência e aguardava o próximo rock adulto. Sem menino gritando ao meu lado, derramando guaraná na camisa saída da lavanderia e me estapeando pra chamar atenção. E, last but not least, sem pai que lhe desse rumo e prumo.

Com o tempo, o tio percebeu que, como tudo na vida, não se pode trocar o todo pela parte ou generalizar a partir das regras quando as exceções estão ali pra provar que ainda há vida inteligente e sem pirracinhas sob o teto familiar. Que as crianças mais saudáveis nem sempre têm pais que correspondem à sua saúde infantil, e ainda assim sobrevivem às doideiras paternas.

Faltava pouco, um pequeno empurrão para voltar às boas com esse universo de Galinha Pintadinha, Gummy Bears e Peppa Pig. Eis que aparece Annelise, a afilhada, que se planta em nossas vidas como flor de pura delicadeza. Ela, a flor; ela, a quem devemos cuidar, é quem nos rega e aduba. A mão nada boba do destino se encarregava de nos levar pro salão pra sairmos em contradanças com esta miúda bailarina de porta-joias.

E o bailado não poderia ser mais fluido e flexuoso. O tio rabugento rendeu-se, baixou as armas frente à doçura da infante e se deixou levar por aquele olhar que carrega todo o ineditismo do mundo, todas as primeiras vezes, a revelação do instante. E como é enriquecedor ser um dos que podem guiá-la nas descobertas e mostrar-lhe lugares, coisas, a vida se abrindo aos iniciantes olhares.

Uma criança se inaugura assim que o mundo vai descendo suas cortinas em camadas. O pano caindo aos poucos e ela assistindo ao que será a inauguração da vida. É sempre um começar agora, o instante-já de que falava Clarice estreando diante da sua visão, a mais pequenininha. E, claro, a inocência se desfazendo aos poucos, com e sem sustos, tombos e levantes.

Vivo uma vez por semana cada um desses momentos da estreia da menina e agora sou eu quem pareço saborear outra vida, menos dura, mais compassiva. O pulsar do dindo é outro que não o da mãe, que vive o dia a dia do seu crescimento enquanto eu vivencio a parte (e nunca à parte). E como ela me ensina a prestar mais atenção, como me dá lições com aquele olhar de aproximação, às vezes enviesado ou com a ternura de confiar em minha mão a conduzi-la.

E é quando ela me estende a mão pro passeio que sinto nas dobrinhas dos dedos quem leva quem para as descobertas no reino da delicadeza. Annelise se faz de farol e luz-guia. Resta-me, adulto rendido, acompanhar a menina.

(Publicado originariamente no Jornal A Gazeta, de Vitória – ES)

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Jace Theodoro
Sobre o autor

JACE THEODORO é escritor e padrinho da Annelise.

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