Manchas num sofá rasgado

Bateu na janelinha do guichê, acompanhado de um amigo “ei professor João, que saudade… vim aqui pra rever todo mundo e matar saudade”. Foi autorizado a entrar e vagueou pela escola. Estudava no turno da manhã e veio nos visitar. Lembro de uma vez que pintou um rio azul com pedras marrons e ocres.

No fim da tarde, tranquila, mas visivelmente decepcionada, a professora de Educação Física anunciou que seu celular foi roubado. A Sherlock-diretora cantou a pedra. Tinha sido nosso amiguinho. Não matou apenas saudades, matou nossa confiança de que a escola mudaria seu futuro. Irmão assaltante. Mãe recém-libertada por um assalto há alguns anos. Irmã constituindo família com o novo ‘Rei do Pedaço’. Diretora forjada nas estratégias de sobrevivência ligando para mãe e dizendo que por engano, nosso amiguinho tinha levado o celular da professora.

“A senhora está enganada, muito enganada, ele passou a tarde inteira sentado no sofá comigo vendo filmes.” – disse a mãe. A diretora a convidou para ver outro filme. Já tinha analisado todas as imagens do sistema de câmeras que praticamente extirpou pequenos delitos da nossa escola que há muito vive um pouco mais tranquila. Veio sozinho, dizendo-se inocente, mas exigiu a confirmação pelo vídeo. Assumiu tranquilamente e pediu meia hora para trazer de volta.

Para Skinner as ações exteriores, para Freud as ações interiores, para Piaget as exteriores associadas às interiores, para Wygotisky as ações interacionistas… para os calejados em três turnos, a teoria do remendar o sofá-família rasgado, limpar suas manchas e assistir juntos o filme do bom caráter, da proteção à infância e da justiça social.

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João Porto
Sobre o autor

JOÃO PORTO é professor de artes visuais, Mestre em Educação e Linguagens pela Universidade Federal do Espírito Santo e cursou Doutorado em Educação e Práticas Inclusivas no PPGE CE UFES e UTEP University of Texas at El Paso. Publicou diversos artigos científicos em revistas e livros especializados.

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