Hoje eu assisti a um parto

Há dias em que a gente acorda meio “não sei”.

Nesses dias a gente sonha com o sol e quando de manhã abre a janela e ele esta lá, esbraveja, desejando a chuva.

O extrato bancário não está vermelho, o almoço foi divino, os filhos não fizeram pirraça, a saúde está boa, as prestações e o condomínio estão em dia, tem gasolina no carro (modesto, porém novo), os amigos desejam nossa companhia, a mulher está linda, cheirosa e carinhosa, mas mesmo assim nada está bom.

A filha mais velha formada em Universidade Federal e nunca ficou um dia sem trabalho, a mais nova, também na Federal, escolhe o estágio que quer fazer, o filho mais velho homenageado como aluno destaque no Colégio e os mais novos inteligentíssimos, carinhosos, amigos. Mas mesmo assim nada está bom.

O “não sei” vai piorando à medida em que não conseguimos identificar sua fonte.

Hoje eu acordei “não sei”.

Saio de uma reunião em que acredito ter feito um bom negócio e tenho a sorte de vislumbrar o que mais gosto no Porto de Vitória: o movimento de rotação de um navio, buscando saída na pequena baia. Mas aquele “não sei” continua apertando o peito e a garganta.

Olhando o navio me sinto o próprio, buscando uma saída de não sei de que para não sei onde, sem rebocador algum para ajudar.

Me apego à fé, mirando no Convento da Penha e decido, do nada, fazer uma visita de improviso a uma amiga que, imagino eu, deve estar numa angústia maior ainda, só que com motivos de sobra para tanto.

Ela, como de costume, me recebe com gentileza acima de meu mérito e me permite saborear um verdadeiro espetáculo, uma explosão de vida, parte de seu trabalho: a chegada de um ente desejado no seio de uma família.

O pai apreensivo, a mãe tensa, um corre-corre frenético nos corredores e o parto finalmente ocorre. Minha amiga entrega nos braços de um casal um bebê belíssimo e, quis Deus assim, com os traços físicos bem semelhantes aos dos novos pais.

Minha amiga não é enfermeira, nem parteira, mas Juíza. Juíza da Vara da Infância e da Juventude e entregou em adoção um bebê a um casal, que o viu pela primeira vez naquele preciso momento.

Eu estava lá e, manteiga derretida que sou, não pude sequer conter as lágrimas, participando de uma emoção que contagiou não só os novos pais, que não conseguiam disfarçar o tamanho da felicidade, mas comissários, serventuários, advogados, serventes, promotor de justiça, enfim, todos os que estavam no local e tinham pelo menos noção da dimensão daquele ato e de suas consequências.

Hoje eu assisti a um parto e acabei sentindo uma pontinha de vergonha por me permitir a ficar “não sei” tendo recebido na minha vida tanta coisa boa e de graça.

(Publicado originariamente no Blog Vila do Pitaco)

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José Eduardo
Sobre o autor

JOSÉ EDUARDO COELHO DIAS é advogado especialista em Direito de Família e Sucessões.

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