A escola, a família e o adolescente em conflito com a lei

Sempre levantei a bandeira de que a docência é algo que me traz muita felicidade. E não é da boca para fora. É verdadeiro. No entanto, no cotidiano de trabalho, nos deparamos com situações nem sempre fáceis de compreender, muito menos de intervir.

Certa vez, numa das turmas com as quais trabalho, um dos estudantes do 1º ano chamou-me atenção. Não pelo fato dele estar repetindo essa série por três anos. A turma dele era a mais agitada da escola. Na primeira aula já precisei agir de forma mais firme.

No finalzinho da aula ele venho conversar comigo. Ótima oratória e uma simpatia. Disse a ele que lembrava dele e da situação que o envolveu no ano anterior (ele ficou meses fora da escola porque estava com restrição de liberdade e a escola não queria recebe-lo de volta, mas ele consegue a vaga de volta. Isso em outubro. Logo depois ele some novamente).

Perguntei porque ele sumiu e ele me disse que foi “pego” novamente. Nesse instante ele me pediu para sair da sala porque a encomenda dele ia chegar e o seu empregado não sabia o que fazer. Como assim, empregado? Quantos anos você tem e já é um empresário com empregado e tudo? O que vende? Que mercadoria é essa?

Ele tentou disfarçar, eu insisti e ele me revelou tratar-se de drogas. Disse que queria mudar de vida, pois só tem 17 anos. Disse que precisa de um estágio para mudar de vida e me pediu ajuda. Disse que não faz uso de drogas e que não vendia na escola. Mas insinuou que há outras pessoas que vendem na escola. Quando falei da mudança de vida ele me disse que ganhava entre R$ 400,00 a R$ 800,00 por semana. O tom dele era de quem dizia: “Como eu vou conseguir um emprego para ganhar isso?”

Conversei muito com ele e o aconselhei. Ele sumiu da escola novamente. Será que vai voltar?

São tantos os meus questionamentos diante dessa história que muitos de nós, professores, vivenciamos cotidianamente. Cadê a família desse rapaz de 17 anos? Na fala dele ficava claro que o pai era ausente e que a figura de família que ele ainda tem é com a mãe que provavelmente não sabe o que fazer. Quantas famílias necessitam de medidas protetivas do Estado? Quantas famílias não sabem o que fazer com os filhos? Quantos filhos são frutos de famílias as quais ninguém sabia o que fazer com elas. Damos o que temos, o que recebemos ou o que fomos ensinados.

A escola é a única instituição que acolhe esses sujeitos e ainda preocupa-se com eles. Esse rapaz passou inúmeras vezes pelo IASES e pela Vara da Infância e da Juventude e isso não o afetou de nenhuma forma. Não recebemos na escola profissionais dessas instituições que queiram saber como anda a frequência, o desenvolvimento cognitivo e comportamental desses alunos. Alguns nós nem sabemos que passou por esse sistema. Esse jovem mesmo não causa “problema” na escola. O que despertou atenção foram as faltas.

Enquanto família e escola ficam sozinhas, vemos, diariamente, nossos jovens, sobretudo os negros, sendo mortos ou cooptados pelo tráfico de drogas. Clamam por uma rede que não existe, enquanto clamamos por serviços que sejam necessários para resgatar a dignidade da nossa juventude. A juventude quer viver, mas precisa de políticas públicas que os ajude a se ajudar.

Enquanto isso, quem nos livra que outros jovens como esse rapaz viciem outros meninos e meninas dentro das escolas? E tem o direito de estar na escola. O mesmo direito que os que ele insinuou que vendem as drogas. Mas o direito dos outros estudantes, quem garante?

Oremos, pois, é o que nos resta!

PS: Enquanto eu escrevia esse texto o rapaz estava sendo velado. E nada podemos fazer…espero apenas não perder a capacidade de indignar-me e de não naturalizar a brutalidade desse mundo cruel. Não quero me “desligar” de minha humanidade.

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Fabiola Cerqueira
Sobre o autor

FABIOLA CERQUEIRA é Mestre em Educação, Especialista em História das Relações Políticas e Licenciada em Ciências Sociais e Pedagogia, atuando como Professora da Rede Estadual do ES e da Rede Municipal de Vitória.

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