Ultimate bathroom fighter

“Sim, mas o lençol estava no banheiro também? Junto com o seu caderno!?” – perguntei, com ares de surpresa.

No campo da aceitabilidade, algumas mentiras inofensivas e que não oferecem riscos são, geralmente, relevadas na escola. Porém, a vivência na sala de aula nos confere, como professores, a maldição da observação, da investigação e, principalmente, da escuta. Logo, mesmo tênue, a linha entre o inofensivo e abusivo não nos confunde facilmente.

“Então, foi isso mesmo. Eu caí no banheiro, quando eu estava fazendo dever e tropecei no lençol.”

O hematoma parecia de um soco no olho. Daqueles bem dados. Inchaço protuberante. Ela não querendo olhar-me de frente. Passou a aula quieta num canto. Segurava e largava o lápis a toda hora. Não conversava com os amigos. Não participava.  A resposta vinha pronta para qualquer um que se atrevesse “caí no banheiro”.

Mostrei-lhe que podia confiar em mim e deixei claro que o mais importante é que ela estivesse segura. Deixei-a se livrar do interrogatório e prossegui com a aula.

Desenhando no quadro, tive a impressão de algo errado. Virei-me lentamente. Ela, no fim da turma. Todos ocupados com suas tentativas de tridimensionalidade e perspectiva. Olhava-me como que me atravessando. Um caminho úmido foi deixado como rastro da pequena gotinha que, quando eu olhei, esfregava com a mão. A salgada lágrima misturando-se ao amargo da vida.

Sem ressalvas, a diretora convocou os pais. Amanhã serei o juiz no octógono. Sem dúvidas, no ringue, levantarei a mão do mais fraco anunciando-o como vencedor.  Sem imparcialidade, participarei da revanche.

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João Porto
Sobre o autor

JOÃO PORTO é professor de artes visuais, Mestre em Educação e Linguagens pela Universidade Federal do Espírito Santo e cursou Doutorado em Educação e Práticas Inclusivas no PPGE CE UFES e UTEP University of Texas at El Paso. Publicou diversos artigos científicos em revistas e livros especializados.

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