Onde os fracos não têm vez

Rasgava a grama com os dentes. Babava. Rosnava. As crianças viam a tudo assustadas. Implorei à diretora para mandar setecentas crianças para casa. Pela lei – não conheço o parágrafo, o número, ou seja lá o que for –, ela disse que não poderia. Consegui ‘trancafiá-lo’ dentro da sala de informática. Arrancou o ar condicionado e saiu. Retirava com as próprias mãos os paralelepípedos do pátio e atirava nos carros dos professores, estacionados. Cavou buracos no terreno tentando lembrar-se onde escondera as outras pedras da sua enlouquecedora abstinência. Eu tinha dois anos no magistério. Esse não tinha sido, por incrível que pareça, um dos piores dias.

Rafael tinha quatorze. Foi mandado por uma juíza para ser matriculado numa turma de segunda série – entre oito e nove anos. Passamos dias assistindo suas violências, masturbações, perturbações… suas crises de falta das drogas. Fui ao cinema, onde sabia por uma amiga que a juíza ia ver um filme, para tentar explicar o erro que ela tinha cometido e o risco ao qual ela expôs os pequeninos, uma vez que ela não respondia minhas cartinhas. Ela não podia perder o filme… tinha pago oito reais no ingresso.

Conseguimos com que as crianças saíssem meia hora antes. Eu, a diretora, uma coordenadora e uma professora restamos ali… tentando convencê-lo ao menos a não se machucar. O olheiro do traficante estava lá, no canto do muro, se certificando de que não chamaríamos a polícia. Rafael começou a quebrar os vidros da biblioteca. Num ato suicida, liguei para a polícia. Ela veio. Não podiam arrastar o garoto. Um policial se afastou. Usou o celular. Entregou o celular para Rafael. Ele pegou. Ouviu a voz do outro lado. Largou as pedras. Largou o telefone do policial no chão. Calmamente, olhando para baixo, saiu da escola e caminhou em direção ao fim da rua. O policial acenou com a cabeça para o olheiro.

A juíza viu o filme. O policial terminou seu turno em paz. E nós, depois de entendermos quem era a lei, nunca mais vimos Rafael.

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João Porto
Sobre o autor

JOÃO PORTO é professor de artes visuais, Mestre em Educação e Linguagens pela Universidade Federal do Espírito Santo e cursou Doutorado em Educação e Práticas Inclusivas no PPGE CE UFES e UTEP University of Texas at El Paso. Publicou diversos artigos científicos em revistas e livros especializados.

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