A vida “fake” dos perfis verdadeiros e o amor incondicional

As frases prontas, em geral, me lembram os para-choques dos caminhões e seus respectivos adoradores. Nada contra essas pessoas, pois são boas e honestas no mesmo grau das demais, mas duvido que realmente a partir deles devamos conduzir nossas vidas. Não creio que algo que serve para uma pessoa se encaixa perfeitamente para nós, ou que uma frase dita em determinada circunstância se aplica em todos os casos, pois se a sogra do caminhoneiro é horrível, nem todas o são.

Na internet ainda temos um outro grande problema, que se soma aos demais. Quem mais tem tempo para ela é o mais desocupado, o que tem menos coisas importantes para fazer na vida, quem tem menos experiência e conhecimento sobre o que diz. As pessoas mais capazes ou em melhor condição e sucesso normalmente até possuem perfis, mas são desenvolvidos por terceiros (assessores de imprensa, empresas de marketing, etc.).

E se algum incauto pretende mesmo aprender algo bom, procure quem sabe, pois “Quem visita os sábios torna-se sábio; quem se faz amigo dos insensatos perde-se.” (Provérbios 13,20). Não é qualquer pessoa que pode lhe dar conselhos, principalmente quem é derrotado justamente no quesito em que se propõe a opinar. Com a experiência de alguns podemos saber apenas o que não fazer.

Fácil notar, também, que, em muitos casos, ao replicar nas redes sociais ou em qualquer local algo previamente preparado e colocado numa moldura bonita busca-se a falsa sensação de possuir alto grau de erudição. Quem está passando o recado, porém, simplesmente não parou para pensar no que passou adiante. Coisas que a baixa autoestima e o excesso de exposição da internet explicam, afinal, todos devemos parecer bonitos, ricos, refinados, felizes, inteligentes, saudáveis, etc.

É a tal da vida “fake” em perfis verdadeiros que, ao final, nos prende à necessidade doentia e crescente de efetivamente nos tornamos aquilo que queremos que os outros pensem de nós, tudo traduzido em insuperáveis expectativas irrecuperavelmente frustrantes, mantendo o ciclo da eterna insatisfação e infelicidade.

Na internet não podemos afirmar categoricamente as informações e dados como fato, assim como também não sabemos se as frases são reais e se foram efetivamente ditas por aquelas pessoas a quem são atribuídas.

Sinceramente falando, acho mais simples para os egos e para o bem da humanidade que haja mais falsidade que verdade. Aquele seu “amigo” da internet não é tudo aquilo que ele mostra, enquanto que, por outro lado, não podemos nos queixar de uma vida em que nada temos reclamar de fato. Sabemos disso, mas muitas vezes não nos damos conta de que o excesso de informação nos faz invejar uma vida projetada por outrem. A inveja não é nem do que se realiza, mas do que está planejado ou sonhado.

Já os antigos costumavam ser mais relaxados com isso aproveitando-se do conceito incutido no seguinte provérbio: “por fora bela viola, por dentro, pão bolorento”. Eles sabiam que era mais interessante cuidar da própria vida porque a dos outros nada tem de mais interessante.

Um dos grandes temas dessas expressões consagradas pelo uso na internet é o AMOR, porque ser amado e feliz é o que mais o que mais incomoda os invejosos de plantão. É o objetivo maior de qualquer ser humano. E o fato é que todos almejamos receber dos outros um amor eterno e incondicional.

Seria lindo se oferecêssemos a mesma coisa. Este seria o mundo ideal, mas poucos estão dispostos a dar amor na mesma medida em que querem, apesar disso ser possível.

Se aparentemente não alcançamos isso, por outro lado não precisamos ter algo tão ruim, desde que evitemos as armadilhas e que não nos deixemos sucumbir por nosso egoísmo.

Infelizmente, vejo as mensagens sobre os sentimentos rotineiramente postadas nas redes sociais confirmando as observações de Bauman sobre o “amor líquido”, pois a temporariedade proposital, o egoísmo, o egocentrismo, a visão extrema e imaturamente romântica da vida a dois, a banalização e a relativização parecem efetivamente ter tomado conta das relações, desfeitas por qualquer motivo. Normalmente os rompimentos só provocam sofrimento desnecessário e arrependimento tardio.

Costumo falar sobre a necessidade de se abrir mão da liberdade em troca da responsabilidade e da segurança para sermos felizes vivendo em grupo. E aqui se enquadram todas as formas, desde um casal até um país inteiro. É por isso que existem as leis, as convenções de condomínio, etc.

Muitos saem de casa porque os pais, hoje, pensam diferente deles, mas depois, quando se transformam em pais, dão razão aos seus genitores e reclamam dos próprios filhos. Outros reclamam de abandono na velhice quando deram aos seus filhos o mesmo exemplo abandonando seus familiares. Muitos casais se desfazem porque supostamente há uma divergência grave, normalmente fruto do pouco diálogo, ou porque um dos dois adotou um comportamento que, em tese, tolhe a liberdade ou agride.

Habitualmente nós nos fazemos de vítimas, mas sabemos que, ainda que realmente o sejamos, não somos inocentes, ou deveríamos saber, se fôssemos maduros. A imaturidade e a rebeldia sem causa só são toleráveis até a adolescência, mesmo assim, dentro de limites bem rígidos.

A maioria dos casos de rompimento de relação têm a ver com a ânsia por liberdade, com a qual nada se faz, absolutamente nada, a não ser durante um pequeno espaço de tempo. E tudo aquilo que fazemos com a liberdade sem segurança e responsabilidade perde o sentido e nos é altamente nocivo, mostrando que essa vida sem amarras não é o que imaginávamos.

Trocamos cordas por correntes de ferro. A enorme animação inicial acaba, os amigos vão se afastando natural e lentamente, cada um entregando sua liberdade a alguém. Ao final, percebemos que se houvesse um pouco mais de diálogo, de ajuda, de perdão, de esforço e adaptação teríamos mais união e felicidade.

Ao contrário disso, não faltarão pessoas que, por um motivo ou outro, darão conselhos em favor da quebra da relação pela simples falta de discernimento, porque querem justificar suas próprias atitudes, porque, estando em sofrimento, regozijam-se quando conseguem trazer mais e mais pessoas passa sua mesma situação ou por simples inveja ou inimizade oculta.

A liberdade, porém, é ótima para nos fazer solitários. Quanto mais livres, mais intolerantes e intoleráveis nos tornamos.

E é preciso tomar cuidado para não se deixar contaminar por ideias venenosas, pois uma estupidez repetida muitas vezes pode parecer uma eloquente verdade. E a internet nada mais é que fonte de repetição de falsas verdades e da cultura de almanaques. Com a internet fazemos, muitas vezes sem perceber, contato com uma quantidade gigantesca de pessoas que nos fazem companhia virtual sem qualquer compromisso com nosso bem estar. É incrível que antes da internet tínhamos alguns poucos conhecidos e, em menor número ainda, de amigos verdadeiros. Hoje temos facilmente 600 “amigos” nas redes sociais. Gente com a qual mal nos relacionamos. E não se deixe enganar: “As más companhias corrompem os bons costumes”. (1 Coríntios 15:33)

A partir de sofismas, criados normalmente por quem não possui o menor preparo na área emocional ou sentimental, criam-se tantas teorias e exigências para detectar e manter o amor que tal sentimento, o verdadeiro, não tem mesmo como sobreviver. Ninguém que ama pode ser tão perfeito, fazendo da vida do outro um mundo cor de rosa de estradas de tijolos amarelos. E nada sobrevive a esse bombardeio de ideias tolas e infantis por muito tempo, e não se pode chamar um sentimento com tantas cobranças, melindres e características supostamente mínimas e essenciais de amor, no qual há momentos bons e ruins, bem como uma luta constante para sua manutenção. Puro exercício de paciência e perdão. Amar não é para os preguiçosos.

As religiões, que, para mim, são sempre acúmulo de conhecimento humano, quase todas fundadas em milênios de experiência, já advertem os familiares sobre honrar pai e mãe em qualquer situação e os casais sobre os temporais psicológicos, financeiros e toda a sorte de problemas. Falam de tormentas e dificuldades a serem vencidas com esforço, navegando-se muitas vezes às cegas, a batalhas são suportadas e vencidas apenas com esteio numa promessa de se manter junto na alegria e na tristeza, na saúde e na doença.

As famílias passam por provações, mas saem ilesas se mantiverem a coesão, ou seja, se abrirem mão da liberdade.

Ocorre que vem sendo bastante difundida, embora não possua autoria específica, uma ideia que impõe uma condição do amor, qual seja, a admiração, e sem isto não haveria amor, mas, sim, desarmonia, desajuste, patologia ou desequilíbrio psicológicos. É habitualmente representado pela seguinte expressão: “Só se ama o que se admira. O resto é confusão mental”.

À primeira vista, aparentemente há uma sensatez nisso, já que a admiração, que vem da sensação de superioridade do outro, faz aproximar num primeiro instante.

Contudo, a falibilidade humana trará a decepção, já que ninguém é, na verdade, tão distinto e tão elevado. Todos a quem admiramos nos decepcionam de alguma forma. E a decepção, então, será o elemento disjuntivo, caso tenha sido o motivo da aproximação. O amor acabará porque aquela condição inicial está fadada a acabar. Da mesma forma a beleza acaba, o viço some, o sexo se esvai e até mesmo a lucidez.

Normalmente não admiramos nossos pais e irmãos para amá-los. E se o amor pelo parceiro tem o mesmo fundamento básico, também não haveria sentido em estabelecer tal regra. Não é porque temos atividades diversas com pessoas a quem amamos que o amor é diverso.

Difere-se na forma, e, não, em conteúdo.

O que se obtém dos registros mais antigos da humanidade é que o amor deve ser incondicional, pois o que não tem motivo para começar também não o terá para acabar, mesmo que o tempo passe. Não há motivo para amar os pais, parentes, filhos e mesmo um parceiro para constituir família. Não há diferença neste amor. Apenas o amor existe e pronto. Na verdade, quando se procura uma explicação para o amor se está em busca de uma justificativa para sua extinção. O amor nunca existiu aí, pois não deveria estar num motivo ou num interesse.

Outro pensamento nos compara aos animais totalmente desprovidos de outros vínculos, a não ser os de interesse imediato. Esse vale o registro, tamanha a estultice: “o que prende o gado no pasto não é a cerca, mas o pasto”.

Apesar de destinado aos casais, aplica-se a todos as relações e da mesma forma, está criada uma condição para o amor…a existência de algo refinado para se consumir e, mais grave que isso, que não pode acabar ou faltar. É então o genuíno egoísmo tomando conta da relação, criando para o outro a condição de ser sempre atraente por algum motivo. Coloca-se, no outro, e só nele, a obrigação de tornar a relação interessante, sempre com oferta permanente de “grama suculenta”. Poucos corajosos se perguntam como vai o pasto que está oferecendo, se ele atrai e prende o outro ou se cerca é necessária. E pior que isso: coloca-se a liberdade como regra do amor e a segurança como o oposto a ele, quando ela é justamente o contrário.

Andei procurando as origens de muitas frases. Não há! Alguém escreveu, emoldurou e os outros simplesmente repetem.

Modestamente, parece-me que o amor não precisa explicação ou justificativa e só é saudável com uma boa dose de segurança e responsabilidade, em que parte de sua liberdade é entregue ao outro para que a simbiose possa acontecer. O amor é nitidamente simbiótico. Jamais deve haver o parasitismo. Na simbiose um ser ajuda o outro a subir, enquanto que o parasita abandona o hospedeiro assim que a fonte seca.

E se é para ficar com frase pronta, prefiro as seguintes:

“Para ser feliz há dois valores essenciais que são absolutamente indispensáveis […] um é segurança e o outro é liberdade, você não consegue ser feliz e ter uma vida digna na ausência de um deles. Segurança sem liberdade é escravidão. Liberdade sem segurança é um completo caos. Você precisa dos dois. […] Cada vez que você tem mais segurança você entrega um pouco da sua liberdade. Cada vez que você tem mais liberdade você entrega parte da segurança. Então, você ganha algo e você perde algo”. (Bauman)

“Não ame pela beleza, pois um dia ela acaba. Não ame por admiração, pois um dia você se decepciona. Ame apenas, pois o tempo nunca pode acabar com um amor sem explicação.” (Madre Teresa de Calcutá)

“A felicidade plena e estável não existe no terreno da psicologia e nem da psiquiatria. Ser feliz não é ter uma vida perfeita, mas humildade para reconhecer os erros, sabedoria para receber uma crítica injusta, coragem para ouvir um “não”, sensibilidade para eu dizer “eu te amo “, desprendimento para falar “eu preciso de você. A felicidade não é um produto de uma pessoa de sorte ou geneticamente privilegiada, mas de um treinamento psíquico. (Mentes Brilhantes, Mentes Treinadas de Augusto Cury)

Para ser feliz e viver um bom amor, que não precisa ser grande ou fantástico, percebo que algumas medidas são necessárias, e a primeira delas é deixar o mundo virtual de lado e colocar-se ao lado de quem se ama, se tem tempo demais para a internet está desocupado ou ocupando-se pouco da família e amigos de verdade e da vida real; a segunda é não procurar uma explicação para o seu amor; e, a terceira, dedicar-se à luta diária para deixar vivo o sentimento, servindo sempre, abrindo mão de muitas coisas e fazendo outras a contragosto porque o outro está fazendo a mesma coisa. Ame pelo que conhece de alguém e aposte tudo naquilo que não conhece.

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Fabiano Giaquinto Herkenhoff
Sobre o autor

Fabiano Giaquinto Herkenhoff é Procurador do Estado na Procuradoria Geral do Estado do Espírito Santo e pai de três filhas.

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