Entre a dor e a força

Passei um ano letivo acompanhando a Pedagoga da escola no que se refere aos assuntos relacionados aos estudantes e conheci muitas histórias: desde jovens de 17 anos já chefe do tráfico de drogas, meninas de 14 anos que já eram mãe de crianças de 2 anos e por isso eram surradas pelo irmão mais velho com a conivência da mãe e até do Conselho Tutelar, até histórias de jovens que se relacionavam afetiva e sexualmente com homens mais velhos e acreditavam que esse relacionamento (a preferência por homens mais velhos) poderia estar ligado ao fato de terem sido abandonadas pelos seus pais biológicos e discriminadas pelos padrastos.

Em algumas situações, nós, profissionais da escola, conseguimos intervir, mas há outras em que não. Na verdade, na maioria delas não conseguimos, pois ficamos sempre na dependência de sujeitos externos à escola, quase sempre “muito ocupados” com situações “mais graves” ou “mais urgentes”. Em outras podemos apenas orientar.

Conheci duas jovens que me contaram a mesma história. Só conseguem se relacionar com homens mais velhos. Quando questionei sobre a família delas (se aprovavam ou não, já que os homens tinham idade para ser pais delas, segundo os relatos), eles diziam que:

a) uma delas, a que era bem resolvida, tem 19 anos, mora sozinha, trabalha para se sustentar e saiu de casa aos 14 anos quando a mãe começou a usar crack. Diz que não entende bem porque ela só consegue se relacionar com homens mais velhos. Diz que eles são mais protetores e que ela quer ser cuidada e não cuidar de mais alguém (quando ela saiu de casa tinha uma irmã com menos de 2 anos que hoje vive com a família do pai, que não é o mesmo dela;

b) a outra jovem, mais insegura, mora com a mãe e o padrasto (e com as irmãs frutos desse relacionamento), fala abertamente que procura homens mais velhos para se relacionar, buscando o amor que não teve de seu pai. Não se relaciona bem com o padrasto, pois ele a rejeita, segundo ela.

Lares sem amor é o que vejo diariamente: pessoas que não admitem a orientação sexual de seus filhos, filhos que sofrem por isso e que são levados pelos pais aos psicólogos ou pastores em busca de cura e tudo mais.

Uma história que me marcou no ano passado foi de uma mãe que nos procurou tentando envolver o pai afetivamente com o filho. O menino tem 17 anos está no 1º ano do Ensino Médio, tem baixa visão e corre o risco de ficar cego. Faz tratamento fora do estado, pago pelo SUS. O pai é militar e paga uma pensão de R$ 500,00 ao filho, mas nega-se a incluí-lo no plano de saúde e de ter qualquer aproximação com ele. A pensão, segundo a mãe informou, não é suficiente, pois ela teve que abandonar o trabalho formal para acompanhar o filho nas viagens. Hoje trabalha no final de semana com um carrinho de algodão doce e de pipoca.

Tentamos contato com o pai, solicitando sua presença na escola, mas ele sempre responde que não pode. Orientamos a mãe a procurar a Defensoria Pública e lá eles disseram que poderiam entrar com uma ação de revisão de pensão, mas quando ao abandono afetivo, nada poderia ser feito.

São histórias como essas que ouço e vivencio diariamente. Muitas me fazem ter raiva do sistema, muitas me fazer chorar, mas todas elas me tornam mais forte.

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Fabiola Cerqueira
Sobre o autor

FABIOLA CERQUEIRA é Mestre em Educação, Especialista em História das Relações Políticas e Licenciada em Ciências Sociais e Pedagogia, atuando como Professora da Rede Estadual do ES e da Rede Municipal de Vitória.

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