Eduque seu filho para uma vida ordinária

A história coletiva se constrói no cotidiano. A sucessão de fatos ordinários que compõem nosso dia-a-dia alfabetizam nossos sentidos. O paladar é educado pelas comidas de mãe e de vó, não pelo restaurante que se vai uma vez por mês. A sensibilidade musical é alimentada desde o ventre pelos estímulos sonoros que os pais compartilham com o feto. Apesar de toda a riqueza expressa no cotidiano, editamos nossa relação com a história criando nas redes sociais um mundo de faz-de-conta, onde somente os fatos extraordinários pareçam de fato relevantes.

As redes sociais, de maneira geral, deturpam nosso contato com o cotidiano. Elevamos a máxima potência tudo aquilo que pode encantar nossos seguidores baseados em três critérios: raridade, status e estética. Apresentamos a quem nos segue uma versão de nosso cotidiano filtrada por estes três pilares da palatabilidade imagética. Este retoque aparentemente ingênuo da narrativa do cotidiano leva a falsa impressão de que a realização se dá pelo extraordinário. Como se quanto mais fatos extraordinários somássemos a nossa biografia digital mais plenos nos tornaríamos.

Ao decupar os três pilares da palatabilidade imagética podemos entender a raridade como sendo os fatos que raríssimamente o cidadão ordinário vivencia. Como exemplo podemos citar as postagens que noticiam emagrecimentos de mais 20% em um único mês. Já o status é o critério que busca revestir de poder o indivíduo perante seus seguidores, como postagens notificando a presença em restaurantes caros ou informando a aquisição de bens de consumo. Por fim, o filtro estético se mostra nas frustradas tentativas de posar espontâneo em situações forjadas. Como a pessoa que acorda, tira a remela do olho, coloca um batom nude, uma maquiagem discreta, finge que bagunçou o cabelo e faz uma selfie dizendo: acordei diva.

O adolescente (e muitas vezes até o adulto) ao fazer a leitura deste mundo editado de seus seguidores e perseguidores, passa a ter a impressão que a vida de todo mundo é apenas o extraordinário, e que por isso sua vida é medíocre. Quando na verdade medíocre é a vida de todos nós, quando compreendemos o verbete pela definição de tudo aquilo que está entre o grande e o pequeno, entre o bom e o mau.

Não somos a porção estratosférica nem a zona abissal de nossas existências. Estes são pontos fora da curva. Cotidianamente somos medíocres. Educar para a compreensão da mediocridade nossa de cada dia é dever da família e da escola.

Recentemente em conversa com um amigo ele revelou-me que no carnaval foi para um balneário muito disputado por turistas de maior poder econômico. Durante os cinco dias que desfrutou dos encantos deste lugar coabitou uma casa de três quartos e apenas um banheiro com outras vinte e três pessoas. O espaço poderia ser definido como a conjunção de um albergue com um cortiço. No entanto, todos os dias ao acordar ele passava em frente a um hotel de bandeira internacional e dava check-in facebookiano. Todos seus seguidores acreditam que o carnaval dele foi cinco estrelas.

Assim como este amigo, muita gente se vê na obrigação de além de editar seu cotidiano ainda forjar situações onde sua vida pareça com as vidas que ele leu em seu feed.

Compreender o valor de uma vida ordinária tira de cada alma um terabyte do peso da auto cobrança. Degustar a poesia do café da manhã ao lado dos familiares saudáveis e amáveis, pode ser mais curtição que um almoço sozinho num restaurante japonês. Na medida em que nos libertamos da cobrança de sermos todo dia extraordinários nos humanizamos e nos tornamos mais sensíveis aos fatos e fatores que tornam a vida um espetáculo para ser apreciado e vivenciado.

Como educamos pelo exemplo, nestas férias surpreenda seus educandos. Poste fotos “do lugar comum onde qualquer um se esconde”. Poste fotos da “vida como ela é”. Compartilhe nas redes sociais o bife acebolado com a cerveja da promoção. Registre os momentos pensando no que de fato importa, e esquecendo os padrões do que se exporta. Fotografe sem filtros no coração e mente.

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Fábio Flores
Sobre o autor

Fabio Flores é Pedagogo, Geógrafo, Especialista em Formação Docente, Humorista, Apresentador do programa Triálogo (Imagem TV/RCA), Comentarista e Redator do Programa Bom de Papo (TV Tribuna/SBT).

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