Dizer não também é um ato de amor

A ideia mais marcante do que concebemos como família é a de proteção mútua das pessoas que a compõem, uns dando suporte ao outro, independentemente da ordem de seus nascimentos ou inclusão.

Afinal, todos somos vulneráveis e nem sempre estamos no auge da nossa capacidade, autoestima, energia, etc. Contamos sempre que, nesses episódios, algum dos membros do clã nos ajude, assim como adotamos a postura de ajudar quando nos sentimos com essa capacidade.

A família é o porto seguro, o local em que cada membro estabelece com os demais vínculos que os tornam componentes de uma simbiose, onde um serve o outro, dando-lhe sustentação com vidas independentes, mas entrelaçadas.

Participar de uma família é, principalmente, servir e naturalmente ser servido.

Ocorre que esse abrigo familiar, quando desborda para a superproteção, gera indivíduos incapazes de servir, que é justamente a maior característica de uma família.

A relação, ao invés de simbiótica, passa a ser a ser parasitária, em que uns acabam vivendo em função do outro para apenas servir, perdendo sua identidade como detentor do direito de ser servido, enquanto que o aquele que se apodera das benesses se desfigura, transformando-se numa abominável sanguessuga.

Esse pequeno monstro vai crescendo em tamanho e apetite, até que sua voracidade se torna impossível de estancar. Nada lhe basta, nada o satisfaz. A utilidade do hospedeiro se reduz a apenas mais uma das fontes de energia e outras serão buscadas. O massacre se estende aos demais membros e até desconhecidos pouco cautelosos.

Em geral, existe um equilíbrio nessa unidade familiar, bem como funções distintas, o que não impede de perceber que a alteração comportamental nefasta, caracterizada inicialmente pelo fato de um dos componentes jamais ter um revés, nenhum mal lhe acontecendo, ao contrário da média dos demais. Este é o sinal da superproteção, que dá início ao círculo vicioso em que o hospedeiro começa a alimentar o parasita.

Quanto antes este sintoma for detectado, melhores as chances de evitar o problema, que é causado justamente por quem sofre as consequências.

Depois passa-se ao nível do excesso de exigências do parasita, que jamais é contrariado.

A contrariedade e a oposição são inerentes às relações. O não é benéfico e normalmente é a resposta mais habitual. A inversão dessa estatística também é um sinal claro de que os limites estão sendo superados.

Num estágio mais avançado o hospedeiro demonstra esgotamento com a situação e, ao final, sente-se incapaz de reagir a tal violência que ele mesmo produziu.

Quanto mais arraigado o comportamento do hospedeiro e do parasita, mais ele parece perpétuo. Há quem até goste da “coceira” causada, pelo menos por um tempo, até que a energia acabe.

A única solução é o NÃO. Dizê-lo coloca as coisas em ordem, mantê-lo corajosamente é imprescindível. Defendê-lo aguerridamente é a única forma de trazer o elemento viciado em receber ao núcleo familiar saudável, mesmo que isto custe eventualmente defender-se contra atos de violência.

Contra o abuso, só o NÃO salva! O NÃO também é um ato de amor. Talvez o principal.

Share
Fabiano Giaquinto Herkenhoff
Sobre o autor

Fabiano Giaquinto Herkenhoff é Procurador do Estado na Procuradoria Geral do Estado do Espírito Santo e pai de três filhas.

Share on

Leave a reply