Uma história de amor

Neste ano tive que fazer uma busca de um pretendente à adoção para uma criança com deficiência que estava disponível (com a sentença de destituição do poder familiar já prolatada).

O quadro de saúde dela não estava totalmente definido, mas era possível perceber que ela apresentava sequelas que, segundo os médicos, eram decorrentes do parto. Ele, “nosso guerreiro”, com quase 5 anos, necessitava da ajuda de terceiros para suas necessidades fisiológicas e para sua locomoção, que às vezes se dava por meio de cadeira de rodas. Apresentava, ainda, algumas dificuldades na fala, que não era suficientemente clara, além de alguns outros pequenos problemas que não vale relatar.

É muito difícil conseguir alguém que adote uma criança em tais condições, o que não facilitou em nada nosso trabalho de localizar um pretendente no Cadastro Nacional de Adoção.

Decidimos, então, contatar pessoas nas cidades mais próximas, já que pode acontecer que, falando nas reuniões com os habilitados sobre uma criança que está disponível, alguém decida realizar uma visita à instituição de acolhimento e o encantamento pode acontecer, relegando para um segundo plano o perfil de criança desejada inicialmente traçado.

E assim aconteceu! Um casal maravilhoso, no sentido mais bonito da palavra, visitou “nosso guerreiro” e começou a levá-lo para casa nos finais de semana, como um “período inicial de experiência”. Foi tudo muito rápido e os habilitados tiveram que se organizar, às pressas, para a viagem com a criança e adaptar a residência para recebê-lo.

Após o primeiro final de semana na residência dos habilitados, “nosso guerreiro” retornou e foi direto para a creche, lá falando com um funcionário mais ou menos o seguinte: “Você vai sentir minha falta se eu for embora? Meus pais chegaram e vão me levar pra outra cidade.”

O tal funcionário ficou muito emocionado porque também estava apreensivo sem saber qual seria a decisão do casal.

Nosso menino ainda ficou um tempo na instituição de acolhimento em função das diversas tentativas de se buscar um familiar que pudesse acolhê-lo, e também porque sua mãe biológica demonstrava afeto para com ele, apesar de não fazer um só movimento efetivo para recuperar a guarda do filho.

Em função dos anos de institucionalização, a criança conquistou muitos corações: Juízes, Promotor, Defensora, funcionários do fórum, da promotoria, da Defensoria e Prefeitura; profissionais que o atenderam e cuidaram dele…ou seja, estávamos todos na torcida para que ele conseguisse uma família que o amasse e desse conta dos seus problemas de saúde.

Em uma segunda-feira, após o domingo em que foi comemorado o dia das mães, a habilitada foi à sala do Serviço Social e contou chorando que “seu filho” lhe havia perguntado, no dia anterior, se ela gostaria de ser a SUA MÃE. Então, na mesma semana, a guarda saiu e dentro de alguns dias tivemos a grata notícia de que sairá a adoção. Hoje nosso querido guerreiro está falando melhor, retirou a fralda, pratica equoterapia e está sendo acompanhado por diversos profissionais, que estão estimulando o seu desenvolvimento. Adorei a foto dele se divertindo quando foi à praia pela primeira vez.

Em setembro, recebi a mensagem da guardiã:

“Nosso Guerreiro. já esta conseguindo dar 4 passos sozinho sem segurar em nada. Eu quase desmaiei de felicidade ontem. Papai do Céu é perfeito.”

O amor faz milagres!

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Odete Loureiro
Sobre o autor

ODETE MARIA LOUREIRO RIBEIRO é Assistente Social e trabalha atualmente no Poder Judiciário (RJ), lidando diretamente com questões relacionadas a crianças em situação de risco e pais candidatos a adoção. A Odete cursou Especialização e Mestrado Profissional em Gerontologia na Espanha (Universidade de Salamanca), é autora do livro “Adoção", pratica yoga, meditação, é vegetariana e adora uma boa foto.

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