Os oitenta e dois cheiros de hortelã

Uns dois quilômetros depois resolvi parar. Sol forte. Acostamento. Fiquei tentando sinal do celular para ligar. Em segundos lembrei-me do primeiro iogurte que eu tomei… já estava crescidinho. Fui sozinho à Fernando Ferrari com a Simão Nader. Antes era uma COBAL, mas já tinha virado um supermercado chamado Balaio. Ali nós, pobres, comprávamos. Eu estava sozinho, mas toda uma rede de produção de autonomia estava formada pelos meus seis irmãos, minha mãe lavadeira e meu pai alcoólatra – mas não ausente. Lembro-me da embalagem verde, pregueada. O iogurte não tinha nome. Nada tinha nome no Balaio.

A moça do outro lado atendeu “um minuto Senhor, vou perguntar ao meu gerente”. Ainda no acostamento, com o carro no sol, esperei pela resposta. Eram doze quilômetros até a famosa franquia de comida pseudo-árabe. “Sim, senhor, pode vir buscar as esfirras.” Tive que me certificar, afinal, estava parecendo muito fácil.

Durante um passeio no parque da cidade, tendo trepidado em um ônibus meio irregular até lá chegar, nossos alunos, da nossa tão tão distante periferia, viram uns panfleteiros distribuindo um vale-uma-esfirra na entrada. Nos mais de sessenta minutos de passeio, indo e voltando à entrada, recolheram oitenta e dois.

Então… não era um cruzamento acessível. Não era um restaurante acessível. Mesmo com autonomia moral, a autonomia financeira inexistia para chegarem, individualmente, ao tal restaurante e conhecer a tal iguaria. Oitenta e dois vales para esfirras gratuitas. Um empenho coletivo quase marxista. Uma resiliente alternativa proletária para burlar a desigualdade social. Eu precisava ir buscar as esfirras. Só liguei dois quilômetros depois, pois precisava seguir com o plano mostrando para eles que o plano tinha dado certo. Precisava – aff, cristianamente pensando – dar os primeiros passos dentro do mar vermelho provando minha fé de que ele abriria. E ele abriu.

Trouxe as caixas. Meu carro está meio acebolado até hoje. Brincaram de cheirar antes. O cheiro agradável da hortelã nas esfirras quentes. Um sorriso no rosto. Não conseguiam pronunciar o nome daquilo, mas tinham vencido algumas batalhas: inacessibilidade, divisão de classes, desunião, capitalismo, neoliberalismo, injustiça social e melhor… ouvindo, enquanto degustavam, seu professor narrando histórias das mil e uma noites.

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João Porto
Sobre o autor

JOÃO PORTO é professor de artes visuais, Mestre em Educação e Linguagens pela Universidade Federal do Espírito Santo e cursou Doutorado em Educação e Práticas Inclusivas no PPGE CE UFES e UTEP University of Texas at El Paso. Publicou diversos artigos científicos em revistas e livros especializados.

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