No umbigo do furacão

Rainer está incluído. Ele frequenta a sala de aula dita regular, bate e arranha a estagiária quando a mãe não lhe dá os remédios. Ele bateu em Priscila. O professor de Educação Física ainda não tinha chegado à sala, nem a estagiária responsável por Rainer. A mãe de Priscila, de chinelo, joelhos meio ruços, barriga à mostra numa baby-look PP, requisitava providências, mudança de turma…

Representantes da escola, duas professoras, a mãe, a menina… Faltando um mês para terminar as aulas, mudar Priscila de sala era o que se decidia. Rainer ficaria. A estagiária é toda encrencada com a professora da outra sala, logo ele não poderia mudar de sala.

Priscila, pequena, com os olhos arregalados passeando por toda aquela gente falando sobre ela.

Oito anos. Apaixonada pela sua professora. A poucos dias do encerramento do ano letivo, Priscila seria violentada. Oito adultos, numa mesa, olhando para o band-aid no seu braço. Oito lacinhos no cabelo da boneca que ela segurava. Oito minutos ouvindo a deliberação da comitiva. Priscila teria que se readaptar a uma nova sala de aula, fazer novos amigos, entender a nova professora, tentar acompanhar o conteúdo e… e tinha um mês para fazer isso.

Num parco entendimento do caos, a tal borboleta batendo as asas em Tóquio e causando um furacão em Nova Iorque é um dos agentes mais comuns na educação. A dificuldade é localizar essa borboleta. Assim, na sequência grotesca de erros da história, com muitas borboletas e envolvendo Priscila, talvez a escuta fosse uma pequena centelha na redução de danos.

“Ei, pessoal, prestem atenção, estamos aqui com uma pessoa. Essa pessoa está sendo ignorada. Sabiam que ela tem o direito de se manifestar?” Me olharam como seu eu fosse um anormal. “Priscila, com qual professora você quer ficar?” – perguntei. Ela apontou para sua professora, com uma lágrima descendo, e disse: “não quero deixar meus amigos nem minha professora”.

Priscila foi mudada de sala. Eu era seu companheiro na invisibilidade e no “silenciamento”. Às vezes acho que os furacões são até pequenos, diante da quantidade de borboletas batendo suas terríveis asas dentro da educação.

Share
João Porto
Sobre o autor

JOÃO PORTO é professor de artes visuais, Mestre em Educação e Linguagens pela Universidade Federal do Espírito Santo e cursou Doutorado em Educação e Práticas Inclusivas no PPGE CE UFES e UTEP University of Texas at El Paso. Publicou diversos artigos científicos em revistas e livros especializados.

Share on
3 Comments

Leave a reply