Mulher de maçom

Casamento

Há mulheres que dizem:

Meu marido, se quiser pescar, pesque,

mas que limpe os peixes.

Eu não. A qualquer hora da noite me levanto,

ajudo a escamar, abrir, retalhar e salgar.

É tão bom, só a gente sozinhos na cozinha,

de vez em quando os cotovelos se esbarram,

ele fala coisas como “este foi difícil”

“prateou no ar dando rabanadas”

e faz o gesto com a mão.

O silêncio de quando nos vimos a primeira vez

atravessa a cozinha como um rio profundo.

Por fim, os peixes na travessa,

Coisas prateadas espocam:

vamos dormir.

somos noivo e noiva.

(ADELIA PRADO, Terra de Santa Cruz, Rio de Janeiro: Record. 2006. p. 25)

Meu marido e meu filho saem, disciplinadamente, todas as noite de quartas-feiras – elegantes, em seus ternos, gravatas e sapatos pretos. (Há muito tempo atrás, meu avô fazia esse mesmo itinerário.) Vão encontrar outros homens. Vão estudar antigas doutrinas e saberes. Vão discutir filosofia, política, arte e religião. É tudo o que sei, pois, de seus ritos e antigos procedimentos não me dou conta – coisas de homens:

(Há mulheres que se opõem. Será que se fosse uma reunião de bebidas e futebol estariam mais à vontade? Não sei…)

Nossos homens se vestem bem e saem, rotineiramente, para discutir o mundo e suas humanidades – e buscar jeito de serem, ambos, melhores. Gosto disso.

Há milênios se reúnem assim. E escrevem sua participação na História: Revolução Francesa, Independência dos Estados Unidos da América, Independência do Brasil, Abolição da Escravatura, República… para falar de algumas. A Maçonaria tem estado presente – deixando rastros de luz.

Tenho orgulho disso.

Separo terno, meia, sapato. Penteio cabelos. E torço, torço muito, para que novas soluções sejam encontradas. Que posturas mais comprometidas sejam adotadas. Que atitudes concretas, novos movimentos os engajem. Que continuem levando para esse nosso mundo, tão precisado, correntes do Bem que ajudem a transformá-lo.

Espero palavras e atitudes que tragam mais que as lamúrias e os medos cotidianos, espalhados por todas as mídias mundiais e conversas de botequim. Espero bons sonhos e estratégias para contruí-los. Espero brilho nos olhos.

Tenho muita esperança – e mãos, braços, pernas, mente e coração abertos e prontos para ajudar!

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Maria Elvira Tavares Costa
Sobre o autor

Maria Elvira é mulher e é mãe. A gente podia dizer que ela é administradora, que tem Licenciatura em Sociologia, que é psicodramatista, psicopedagoga, que já trabalhou muito de carteira assinada etc, etc... Tudo seria verdade, mas é pouco: Maria Elvira é Contadora de Histórias!

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