Lavando a louça, lavando o mundo…

Eu entendo a repulsa comum em relação à tarefa doméstica de lavar a louça. Ao primeiro olhar, não é mesmo uma das atividades mais glamorosas. A alma é torturada com a ideia de ficar em pé em frente a uma pia depois do almoço de domingo, com a barra da camisa molhada, raspando restos de comida para a lixeirinha e juntando o arroz que acumula no filtro do ralo, enquanto a imaginação corre pelos resorts da vida, onde “os outros” estão agora sendo servidos e sentados em confortáveis sofás a beira da piscina.

Tendo saído de casa com 16 anos para estudar fora, precisei enfrentar por centenas de vezes, e a contra gosto, a terrível pia cheia de louça suja. Eu ficava ali, olhando pra ela… e, pior, com a desagradável sensação de que um monstro por debaixo daqueles pratos me observava.

Contando com apoio apenas aos sábados, eu precisava evitar que o resto da comida do domingo completasse uma semana de vida até a próxima visita da saudosa Lili, minha querida faxineira da época que eu morava em Vila Velha, em meados dos anos 90.

Entretanto, se tem uma habilidade humana que me encanta é a capacidade de reinterpretação da realidade. O livre arbítrio. Não apenas de livre ato, mas de livre pensamento. A possibilidade de restabelecer significados para a mesma realidade, interpretando-a segundo óticas distintas. É preciosa a possibilidade de um olhar mais profundo e carinhoso das pequenas coisas do cotidiano, como alguém que remexe o cascalho em busca de uma pepita de ouro.

Migrar da visão do lavar louça como humilhação para a ótica da beleza do cuidado foi um processo que começou na esteira de um relacionamento rompido. Como parte do processo de luto e reestruturação de vida, em 1997 eu decidi mudar de Vila Velha para Vitória.

A ideia era montar um novo lar, uma casa com a minha cara, para “virar a página da vida”. Foi uma experiência especial, desde a escolha do apartamento. Com muito cuidado, escolhi a Mata da Praia. Na época, o único bairro que possuía um condomínio com clube. O famoso “clubinho da mata da praia”. O prédio escolhido foi o Praia de Guarujá, o único do condomínio de dois quartos, cujo aluguel cabia no bolso.

Assim, depois da luta para conseguir um fiador e com o contrato assinado, comecei a pensar cada detalhe do apartamento com muito carinho, desde os móveis até os utensílios de cozinha. O novo espaço traria, então, uma identificação comigo mesmo e seria palco de divertidos encontros com os amigos. Era a vida sendo passada a limpo, na metáfora de um novo lar.

A partir disso, eu tinha agora uma nova realidade a cuidar. Uma pia suja, cheia de louças engorduradas não combinava com um espaço preparado com tanto esmero. Ficava mais fácil quando eu lavava https://www.viagrapascherfr.com/viagra-feminin-achat-internet/ assim que sujava. Afinal, a procrastinação favorece o acúmulo, e o acúmulo provoca mais procrastinação.

Foi assim que me libertei da humilhação de ter uma pia de louça a lavar e passei a experimentar a grandeza de cuidar de algo significativo: de cuidar da minha casa. E percebi que quando sua alma está no mesmo lugar que seu corpo, e não deseja estar em outro lugar, você vive plenamente os momentos do cotidiano, mesmo que seja com uma esponja na mão e um copo sujo na outra.

Anos depois, eu ouviria do padre Fábio de Melo: “no ato de lavar uma xícara de café em sua casa está escondido o mesmo amor capaz de lavar o mundo de tudo aquilo que não presta”.

Morava nesse mesmo apartamento quando conheci minha esposa Helena. Foi lá que moramos os dois primeiros anos do nosso amor e onde foi concebida minha filha Ana Júlia. Perto de completar nove meses de gravidez, em função de mudanças no trabalho, mudamos para o Rio de Janeiro, onde ela nasceu. A responsabilidade e o privilégio de cuidar de um bebê só confirma a grandeza das atitudes de cuidado, em comparação a mesquinhez de se sentir humilhado por fazer uma tarefa de limpeza. Será trocar fralda uma tarefa que nos diminui?

Considero lavar louça uma das muitas atividades de cuidado com a minha família. E sendo atitude de cuidado, é atitude de amor. Na correria do dia a dia,  às vezes parece perda de tempo, mas é também uma forma interessante de romper com a sensação de urgência que me faz querer correr mais e mais.

Assim, no fluxo das águas passando pelas minhas mãos enquanto as bolhinhas brancas do detergente vão fazendo seu trabalho, eu digo ao telefone que toca: “Agora não! Estou cuidando da minha família. Estou passando minha vida a limpo. Estou ocupado lavando o mundo.”

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Jorge Penedo
Sobre o autor

JORGE PENEDO é nascido em Cachoeiro de Itapemirim-ES e casado com Helena de Brito. O pai da Ana Júlia, de 13 anos, é formado em engenharia eletrônica pela UFRJ e atua profissionalmente como consultor de sistemas, escritor e palestrante. Encantado pela vida, pela família, pela educação e pelas relações humanas, gosta de usar as palavras para valorizar a vida, os relacionamentos e a forma como o homem lida com a própria existência e contribui com o meio onde está inserido.

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1 Comments
  • 40mg - junho 26, 2018

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