A tal da guarda compartilhada – Capítulo 2: É a mãe!

Eu já tinha até publicado o artigo sobre o pai quando resolvi escrever sobre mãe e decidi brincar um pouco. Fui ao Google e digitei “o que é uma mãe”. A pesquisa retornou com “aproximadamente 50.300.000 resultados (0,37 segundos)” e me fez pensar que talvez existam, realmente, mais de cinquenta milhões de opiniões acerca do tema. Se isso foi ruim porque ampliou demasiadamente o universo da pesquisa, por outro lado me deixou à vontade para escrever com mais leveza, abrindo um pouco de mão do rigor científico que costumo imprimir em trabalhos como este.

 Resolvi divagar e me lembrei do meu mentor durante os tempos de faculdade. Toda vez que chegava ao escritório algum pai brigando pela guarda do filho, Dr. Ney Santos Vianna, meu eterno guru, dizia que aquilo era um absurdo, pois quem tem que ficar com a criança é a mãe. Um dia tomei coragem e perguntei ao Dr. Ney porque tanta convicção e ele me respondeu de forma singela: “já viu algum pai vendo se o filho escovou os dentes direito?”

 Claro que dos anos oitenta para cá muita coisa mudou e alguns cuidados que eram dispensados exclusivamente pelas mães, hoje também os são pelos pais. Uma coisa, entretanto, é inegável: a expressão “mãe” está quase sempre associada aos conceitos de origem, cuidados (zelo, proteção etc) e até mesmo de infalibilidade.

 Mãe, em nossa cultura, não é apenas que gera a vida, mas também aquela que alimenta, que cuida, que protege e que tem alguns dons especiais, não dados aos outros humanos, como a capacidade de prever alterações climáticas (“leva um casaquinho que vai esfriar”), da hipersensibilidade remota (“isso dói mais em mim que em você”) e até de prever o futuro (“isso não vai dar certo”) dentre outros.

 O vínculo da mãe com seu filho é, de certa forma, incompreensível para os homens, já que formado antes mesmo da criança vir ao mundo. Como bem lembra Cintia R. Bonalume[1], “antes mesmo do primeiro choro, do primeiro colo e da primeira mamada, mãe e filho já estão vinculados e este prossegue ao longo de muito tempo durante a vida de ambos”.

 Prossegue a Pedagoga, Psicopedagoga e Revisora de Textos, sustentando que “estar vinculado apenas, não garante um pleno desenvolvimento a este pequeno ser que acaba de vir ao mundo”, sendo necessário que esta mãe seja suficientemente boa, conceito utilizado por Winnicott para designar aquela mãe que “não frustra, nem gratifica, de forma excessiva, e que possibilita um sadio crescimento do self do seu filho” (ZIMERMAN, 1999, p.104).

 Para não frustrar nem gratificar de forma excessiva é preciso que se entenda do que necessita a criança. E como entender o que quer uma criança, que sequer fala nossa língua? A criança vem ao mundo despida de significantes e significados. Introduzir a criança neste universo é tarefa que as mães fazem via de regra sem perceber a magnitude de sua obra. Dar significado a cada tipo de choro, de expressão, de birra, enfim, introduzir a criança no universo simbólico é o que fazem as mães, sendo, consequentemente, figura fundamental para o desenvolvimento cognitivo dos pequenos.

 A autora aqui citada, firme em Winnicott, salienta que “da relação mantida com a figura materna, basicamente, dependem as primeiras marcas que o sujeito recebe, e estas configuram a base de sua constituição.”

 A função materna é, portanto, este elemento indispensável, de valor incalculável ao desenvolvimento e à constituição do ser humano, um papel do qual dependerá, em grande medida, toda a existência do sujeito.

 Vocês podem estar se perguntando o que tem isso com guarda compartilhada, mas a resposta é simples e até óbvia: é que quando da separação alguns “homens” insistem em negar à mãe tal relevância, como se a criança sempre tivesse existido sem que a função materna tivesse se operado.

 Outros elevam sua crueldade ao requinte de saber exatamente como é forte o vínculo e por mera vingança ou demonstração de poder tentam deteriorá-lo. Não é demonstração de força, é estupidez. É negar ao filho o direito à sua própria identidade, é fazer com que ele não consiga encontrar rumo na vida.

 Um pai que tenta destruir a imagem da mãe está destruindo a própria criança. Imagine a confusão que se instala na cabeça do pequeno quando ouve do próprio pai que aquela que ele tomou como esposa não presta, é isso ou aquilo. Se a mãe não presta e se o pai não sabe escolher, que rumo tomará aquele ser?

 Evidente que algumas mães recusam seu papel e acabam abrindo mão dos ônus que a guarda impõe, mas isso é outra história. O momento aqui é de refletir se vale a pena retirar a guarda de uma mãe, restringindo sua atuação como tal, sem motivo totalmente justificado. Mais que isso, será que é realmente necessário que um dos genitores exerça com exclusividade a guarda? Por que, se os papeis são tão diferentes?

 Se a função materna é diversa da paterna, o que impediria o exercício conjunto de tais tarefas, cada um com a sua?

 A criança não é colocada em primeiro lugar, não é priorizada, pois se fosse, pai e mãe teriam comportamento completamente diferente dos que vemos nos Tribunais.

 Evidente que a importância da mãe não se esgota com as linhas acima, sendo mais provável que em cada um dos mais de cinquenta milhões e trezentos mil resultados que o Google oferece, um novo detalhe apareça e um novo motivo surja para destacar a relevância das mães na vida e formação dos filhos.

 E de repente me lembrei do Dr. Marcílio Persici, promotor de justiça hoje aposentado, me dizendo que em sua vida de bons serviços prestados no Ministério Público nada o deixou tão mal, nada o destruiu tanto psicologicamente quanto “ver a Justiça arrancar um filho dos braços da mãe”.

Veja abaixo o link para cada um dos capítulos publicados.

O pai: http://migre.me/nuXMO

É a mãe!: http://migre.me/nuY37

A separação:  http://migre.me/nCv6g

Guardar: http://migre.me/ou72S

Modificações: http://migre.me/ou8j1

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[1] BONALUME, Cintia R. O contexto familiar e o desenvolvimento infantil: considerações sobre o complexo de édipo, a aprendizagem e os limites. Publicado em Psicologado. Disponível em <https://psicologado.com/psicologia-geral/desenvolvimento-humano/o-contexto-familiar-e-o-desenvolvimento-infantil-consideracoes-sobre-o-complexo-de-edipo-a-aprendizagem-e-os-limites>. Acesso 13 DEZ 2014.

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José Eduardo
Sobre o autor

JOSÉ EDUARDO COELHO DIAS é advogado especialista em Direito de Família e Sucessões.

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