Boneca, poste e um cano fumegante

“Eu não fiz nada! Ela tem inveja que eu tenho três filhos, estou grávida, e continuo gostosa, enquanto ela tem só um filho e é horrorosa!”

Eu, sentado, olhando extremamente sério para uma velha de vinte e três anos que transferia sua filha de escola, pela quarta vez em menos de um ano, para não apanhar amarrada num poste e ter seu cabelo raspado por ter “mexido” com a “mulher” de um traficante, ainda tentava dialogar: “Senhora, o histórico da sua filha não tem as notas de nenhuma das outras escolas, nem mesmo da nossa, de onde ela foi tirada há quatro meses.”

“Não tem problema ela reprovar não, o importante é que eu consiga me livrar dessa confusão.”

Confesso que, num coma de tempo, imaginei a cara dela espancada, ela amarrada num poste e careca.

E não me julguem! Dizia minha sábia mãe que você pode impedir que um passarinho faça um ninho na sua cabeça, mas você não pode impedir que ele pouse. Então, encarem esse meu desejo como o pouso de um passarinho.

A despeito de todas as desventuras vividas, a menina também não conseguiu participar ativamente de nenhuma escola a um mês de terminar o ano letivo. Foi tirado da pequena o direito à sociointeração, que capacitava seu desenvolvimento cognitivo.

Existia ali, naquela história – ou histórias – um jogo, uma brincadeira, de outras-meninas-mães que tratam a vida em família como um brincar de casinha, um brincar de boneca. Assim, suas bonecas-filhas, são lançadas numa história de terror. Crianças desamparadas e destituídas do direito de estudar.

“Dá para o senhor se apressar? Não posso ficar muito neste bairro” – falou a tal gostosa. “Meu pai está aí na porta, armado com uma 38.” Ignorei. Não cedo a ameaças. Mentira. Com arma de fogo cedo sim. A filha na porta, agora lendo um livro, transparecia a esperança de no mesmo dia entrar numa sala de aula.

Longe dos olhos vigilantes-burocráticos das superiores instâncias superiores, a diretora, mesmo com a papelada sem ser papelada, olhou docemente para a menina, olhou para mim e depois daquela pausa de suspense, da apreensão e, de fato, de ódio da mãe inconsequente, acenou consentido.

Ela vai passar. Impossível reprovar alguém que já está reprovada no direito à vida, à educação e a uma estrutura familiar.

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João Porto
Sobre o autor

JOÃO PORTO é professor de artes visuais, Mestre em Educação e Linguagens pela Universidade Federal do Espírito Santo e cursou Doutorado em Educação e Práticas Inclusivas no PPGE CE UFES e UTEP University of Texas at El Paso. Publicou diversos artigos científicos em revistas e livros especializados.

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