Adoção: será que ainda temos preconceito?

Quando morei na Espanha saia uma vez por semana com vários estrangeiros, colegas da Escola Oficial de Idiomas, para conversarmos sobre a cultura de cada país. O grupo era formado por uma japonesa, duas finlandesas, três italianos, dois ingleses, uma francesa, dois alemães. Fui percebendo com os encontros que eu não sabia nada sobre os indígenas do Brasil, o que surpreendia aos meus colegas e me deixava constrangida. Não sabia nada também sobre os países vizinhos. Uma vez me perguntaram sobre a guatemalteca Rigoberta Menchú e eu nem a conhecia. Que vergonha! Então, fui percebendo que nós brasileiros gostamos muito de nos vangloriar dos nossos ancestrais da Europa. Muitos de nós falamos de boca cheia que somos descendentes dos alemães, italianos, (…) e poucos dizem com orgulho que são descendentes de países da África ou de determinado povo indígena. Os brasileiros que viajam para outros países dificilmente se interessam por conhecer a cultura dos países vizinhos (ou se vão é porque é mais barato).

O que tudo isso tem a ver com adoção? Em minha opinião muita coisa. Somos apegados a nossa hereditariedade, mas eliminamos ou ignoramos alguns ascendentes dessa árvore genealógica por puro preconceito. E isso de adotar uma criança que não é do meu sangue pode trazer problemas, pode “sujar” o sobrenome da família. Não se espantem, tem gente que consegue falar sobre isso naturalmente e outros verbalizam discretamente.

Outro lado da moeda é o discurso da caridade, há pessoas interessadas em adotar porque acham que devem fazê-lo por uma questão de solidariedade ou por questões religiosas, visando ganhar assim o reino dos céus ou a admiração dos amigos da Terra.

Fico impressionada quando pais adotivos falam como se a sociedade lhes devessem algo porque adotaram uma criança, fizeram um favor. Grande absurdo! A adoção é um ato de amor. A criança ou o adolescente deseja ter um pai e uma mãe (e porque não dois pais e duas mães?). Eles, na maioria das vezes, não escolhem, somente querem um lar amoroso, uma família de verdade. Ninguém deve favor a ninguém. E eu afirmo, com toda certeza, que é através do amor sincero, da educação, do exemplo dos pais que a família adotiva ou biológica pode dar certo.

 

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Odete Loureiro
Sobre o autor

ODETE MARIA LOUREIRO RIBEIRO é Assistente Social e trabalha atualmente no Poder Judiciário (RJ), lidando diretamente com questões relacionadas a crianças em situação de risco e pais candidatos a adoção. A Odete cursou Especialização e Mestrado Profissional em Gerontologia na Espanha (Universidade de Salamanca), é autora do livro “Adoção", pratica yoga, meditação, é vegetariana e adora uma boa foto.

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