Dividam os bebês ao meio!

Estava sentando no corredor e Sarah veio caminhando. Olhou-me e perguntou se estava tudo bem. Eu já até previa que, na sequência, viria algo num nível quase catastrófico. Meio gaguejando, com seus nove anos, me disse sobre a outra, também de nove anos: “Júlia fez sexo!”

 

Quem já esteve como professor numa escola pública de ensino fundamental sabe que existe uma doença chamada surdez-bloqueadora-nível-um, que se apresenta quando você, depois de ouvir uma notícia equivalente a um estouro de gnus, age por cinco segundos como se nada tivesse acontecido, mas na sequência, antes do descompassamento do seu ritmo cardíaco, você devolve a notícia em forma de pergunta: “Julia fez sexo?” “Sim, ela me disse que o tio dela toda noite faz sexo com ela.”

 

Já pensando na melhor forma de castrar o tio, quando tudo que você nunca entendeu de justiça se resume em achar que deveria haver pena de morte, você tenta uma investigação minuciosa do tipo “como assim sexo?”… Nenhuma pausa, muita euforia e Sarah explica: “então… ele sobe em cima dela… daí ele fica tirando a calcinha dela… daí…” “Ok, ok… entendi.” Daí a Sophia vira uma estrela, incontida, heroína. Pedagogo, diretor, a faxineira que está limpando a sala, um professor que entra procurando o papel para impressora, todos, exatamente todos, escutam de relance, fingindo uma não-escuta da narrativa – agora exaustiva – de Sarah, sobre Júlia.

 

Evidentemente chega a vez de Júlia. Assustada, meio que pensando “o que é que eu fiz de errado?”, confirma a história e é o que basta para que se decida que ela não poderá ir embora sem que se acione o Conselho Tutelar. Alguém pergunta o nome do tio. Ele estuda na escola pela manhã. Ele foi meu aluno. Ele tem quatro anos a mais em diferença de idade. O mesmo que eu desejei pena de morte. Mas ele era um menino ótimo. Bom demais. E era gago! Quem ia achar que aquele bonzinho com a gaguice charmosa faria isso? Tantos estigmas e marcas outras que perpassam o currículo escolar, se estabelecendo num currículo de vida.

 

Então um grupo, agora sozinho, de pensadores, de titulados, um grupo inundado de teorias de alfabetização deambula pela sala, dividido entre a ética e a moral. Josué não podia ser um molestador. Julia poderia estar inventando. Mas se Josué realmente tivesse feito isso? Mas ele era um gaguinho fofinho. Ao acionar o Conselho Tutelar, optamos pela ética. Não se pode discutir a ética, ela precisa ser obedecida. Lembrei o código ético chamado Dez Mandamentos. Mas “pera” aí: “não terás outros deuses diante de mim” não parece muito ético não. Enfim, na escola, somos perdidos numa zona fantasma entre o que é ético e o que é moral. Nas entrefronteiras da misericórdia e da justiça somos a advocacia barata.  Pelo nosso código moral era melhor consultar e conversar com Josué, uma vez que a vida dele, depois da denúncia, seria um inferno e, num bairro como aquele, poderia significar até sua morte.


Mas se Josué fosse um incorrigível estuprador-maníaco-atirador-homem-bomba? Julia continuaria sendo estuprada… com o aval do parentesco. Não era nem um dilema Salomônico. Não tínhamos um bebê para dividir. Tínhamos dois. Uma mulher veio. Não era psicóloga, nem do Direito. Fez umas tantas perguntas. Disse que a menina, supostamente estuprada, não tinha um depoimento “consistente”, que “talvez” fosse mentira. Mandou-a para casa. Vi Julia saindo com sua mochilinha pelo portão, vi Sarah acompanhando deseroificada. Dirigi pensando na merda da ética e da moral. Dei boa noite, já na cama, gaguejando… e passei a noite acordado.

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João Porto
Sobre o autor

JOÃO PORTO é professor de artes visuais, Mestre em Educação e Linguagens pela Universidade Federal do Espírito Santo e cursou Doutorado em Educação e Práticas Inclusivas no PPGE CE UFES e UTEP University of Texas at El Paso. Publicou diversos artigos científicos em revistas e livros especializados.

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